A Corrida dos Emagrecedores Entra em Nova Era: 30% de Perda de Peso, uma Injeção por Mês e o "Ozempic Brasileiro"
SAÚDE E BEM-ESTAR
6/10/202627 min ler


Congressos internacionais revelam resultados históricos da retatrutida, molécula que redefine o teto de eficácia no tratamento da obesidade. Uma "caneta mensal" promete revolucionar a adesão ao tratamento. E o Brasil se prepara para lançar o Ozivy, seu próprio agonista GLP-1 — enquanto cardiologistas, endocrinologistas e pacientes tentam entender o que tudo isso significa.
O OZEMPIC JÁ VIROU PASSADO — ENTENDA O NOVO CAPÍTULO
Para compreender a magnitude do que está acontecendo, é preciso ter em perspectiva a velocidade com que o campo evoluiu.
Em 2021, quando a Agência de Alimentos e Medicamentos dos Estados Unidos (FDA) aprovou o semaglutida em dose alta — sob a marca Wegovy — para tratamento da obesidade, o mundo da medicina metabólica parou. O medicamento, um agonista do receptor do peptídeo semelhante ao glucagon tipo 1 (GLP-1), havia demonstrado em estudos clínicos uma perda de peso média de cerca de 15% ao longo de 68 semanas. Era, até então, o resultado mais expressivo já obtido com um medicamento não cirúrgico para obesidade.
A repercussão foi enorme. O Ozempic — mesma molécula em dose menor, aprovado para diabetes tipo 2 — tornou-se um fenômeno cultural além de farmacêutico. Celebridades admitiram usar o medicamento. Faltaram doses no mercado global. O fabricante Novo Nordisk tornou-se, por um período, a empresa mais valiosa da Europa. E uma geração de pesquisadores foi definitivamente convencida de que a farmacologia do sistema incretínico — o conjunto de hormônios intestinais que regulam o apetite e o metabolismo — era o terreno mais fértil da medicina dos próximos anos.
Mas o semaglutida foi apenas o começo.
Enquanto o mundo ainda absorvia o impacto dos agonistas simples de GLP-1, os laboratórios farmacêuticos já trabalhavam em moléculas mais complexas, capazes de agir simultaneamente em múltiplos receptores do sistema incretínico. A lógica era elegante: se um receptor produz resultados extraordinários, o que acontece quando você aciona dois? Ou três?
A Eli Lilly respondeu essa pergunta com a tirzepatida — aprovada pelo FDA em 2022 para diabetes e em 2023 para obesidade, sob o nome Zepbound. Ao contrário do semaglutida, a tirzepatida é um agonista duplo, agindo simultaneamente nos receptores GLP-1 e GIP (polipeptídeo insulinotrópico dependente de glicose). Os estudos de fase 3 mostraram perdas de peso médias de até 22,5% no grupo de maior dose — superando significativamente o semaglutida.
Novo recorde. Novo referencial.
Mas então chegou a retatrutida.
Havia algo diferente no ar no último grande congresso internacional de endocrinologia. Não era apenas a pauta densa, nem os corredores lotados de pesquisadores em conversas aceleradas entre uma sessão e outra. Era a sensação, partilhada por médicos de diferentes especialidades e de diferentes países, de que estavam testemunhando algo que não tem precedente na história da medicina metabólica: números de perda de peso que, há menos de uma década, seriam classificados como biologicamente impossíveis para um medicamento oral ou injetável.
Uma molécula chamada retatrutida chegou às salas de conferência com dados que provocaram reação rara entre cientistas — uma mistura de entusiasmo genuíno, cautela profissional e, em alguns casos, uma incredulidade quase instintiva. Perda de até 30% do peso corporal em estudos clínicos. Números que superam consistentemente o semaglutida — o Ozempic, que já havia redefinido o que se esperava de um medicamento anti-obesidade — e que chegam a se aproximar dos resultados de cirurgia bariátrica em determinadas populações estudadas.
Ao mesmo tempo, outro estudo chamou atenção por uma razão diferente: não eram apenas os números de eficácia, mas a frequência de aplicação. Uma formulação de ação prolongada, que permite uma única injeção por mês em vez de aplicações semanais, atingiu 16% de perda de peso no grupo tratado — um resultado robusto, obtido com uma conveniência que pode mudar completamente a equação da adesão ao tratamento de longo prazo.
E enquanto o mundo observa essa corrida farmacêutica de proporções históricas, o Brasil trata de escrever o seu próprio capítulo. O Ozivy, agonista GLP-1 desenvolvido com tecnologia nacional, está prestes a chegar ao mercado como a alternativa brasileira — mais acessível, com cadeia produtiva nacional, e carregando as esperanças de um país em que a obesidade afeta mais de 60% da população adulta e em que o preço do semaglutida original ainda é uma barreira intransponível para a grande maioria.
RETATRUTIDA — A MOLÉCULA TRIPLA QUE QUEBROU O TETO
A retatrutida não é apenas mais um agonista de GLP-1. É um agonista triplo — a primeira molécula da classe a agir simultaneamente nos receptores GLP-1, GIP e glucagon. Desenvolvida também pela Eli Lilly, ela representa o que os pesquisadores chamam de próximo nível na cascata de complexidade farmacológica dos medicamentos anti-obesidade.
Para entender por que isso importa, é preciso entender o papel de cada um desses receptores:
O receptor GLP-1 é o alvo do Ozempic e de todas as moléculas da primeira geração. Sua ativação reduz o apetite, desacelera o esvaziamento gástrico (fazendo a pessoa se sentir saciada por mais tempo) e estimula a secreção de insulina dependente de glicose. Os benefícios cardiovasculares do GLP-1 — hoje amplamente documentados — vêm em grande parte desse receptor.
O receptor GIP (polipeptídeo insulinotrópico dependente de glicose) tem um papel mais complexo e, por muito tempo, foi subestimado. Estudos mais recentes demonstraram que sua ativação potencializa os efeitos do GLP-1 no sistema nervoso central, amplia a resposta insulínica e tem papel importante na regulação do metabolismo adiposo. A combinação GLP-1 + GIP na tirzepatida já havia demonstrado uma sinergia significativa.
O receptor de glucagon é o elemento mais novo e mais ousado da equação. O glucagon é classicamente descrito como o hormônio que eleva a glicemia — o oposto da insulina. Parece contraintuitivo, portanto, ativá-lo num medicamento para obesidade. Mas a ativação seletiva do receptor de glucagon, no contexto de uma molécula que já ativa GLP-1 e GIP, produz efeitos distintos dos da estimulação isolada do glucagon: aumenta o gasto energético basal, promove a oxidação de gorduras no fígado (o que é especialmente importante para o tratamento da doença hepática gordurosa) e potencializa a lipólise — a quebra de gordura armazenada.
"É uma combinação que explora uma sinergia biológica muito sofisticada", explica o endocrinologista Carlos Henrique Matos, professor de medicina metabólica da Universidade Federal de Minas Gerais. "Você está simultaneamente freando a entrada de calorias, aumentando a saída de energia e otimizando o metabolismo de gordura no fígado. A retatrutida faz essas três coisas ao mesmo tempo."
Os resultados dos estudos de fase 2, publicados no New England Journal of Medicine e apresentados em congressos internacionais, foram os primeiros a mostrar os números que causaram tanto impacto. Participantes tratados com a maior dose de retatrutida atingiram, em média, perdas de peso entre 22% e 24% ao longo de 48 semanas. Em subgrupos específicos — particularmente em pacientes com maior grau de obesidade e em estudos com seguimento mais longo — os números chegaram a se aproximar dos 30%.
Nos estudos de fase 3, ainda em andamento, os resultados preliminares confirmam a tendência. Os ensaios TRIUMPH (TRIple hormone receptor aGonist for Metabolic dIseases Phase 3 Umbrella Multisite) — batismo que não deixa dúvida sobre as ambições da Eli Lilly — estão recrutando milhares de pacientes em múltiplos países e devem apresentar dados completos ao longo de 2025 e 2026.
"O que me impressionou não foi apenas a média", diz a endocrinologista e pesquisadora Patrícia Ferreira, do Hospital das Clínicas de São Paulo, que acompanhou as apresentações nos congressos. "Foi a curva de distribuição dos resultados. Em estudos anteriores, havia bastante variabilidade — alguns pacientes respondiam muito bem, outros pouco. Com a retatrutida, a resposta é mais consistente, mais uniforme. Isso é muito encorajador para a prática clínica, porque significa que você consegue prever melhor o resultado que vai obter."
OS NÚMEROS QUE REESCREVEM A HISTÓRIA
Colocar os dados da retatrutida em perspectiva histórica ajuda a dimensionar o que está acontecendo.
Durante décadas, o padrão ouro do tratamento não cirúrgico da obesidade foi o orlistat — uma droga que bloqueia a absorção de gordura intestinal e que, nos melhores estudos, produzia perda de peso média de 5 a 7% em relação ao placebo. Era pouco, mas era o que existia. A maioria dos pacientes ficava frustrada com a modéstia dos resultados e com os efeitos colaterais gastrointestinais desagradáveis.
A cirurgia bariátrica, por sua vez, sempre foi o procedimento de maior eficácia: o bypass gástrico produz perdas de peso médias de 25 a 35% em longo prazo, com remissão de diabetes em até 80% dos casos. Mas é um procedimento irreversível, com riscos cirúrgicos significativos, que exige infraestrutura hospitalar e acompanhamento multidisciplinar intensivo, e que não é adequado para todos os perfis de paciente.
O advento dos agonistas GLP-1 começou a fechar esse gap. O semaglutida produziu 15%. A tirzepatida chegou a 22%. Agora a retatrutida aponta para 24 a 30%. Estamos, pela primeira vez na história, com um medicamento injetável que pode se aproximar dos resultados da cirurgia bariátrica em determinadas populações.
"Veja bem: ainda não estamos dizendo que a retatrutida é equivalente à cirurgia bariátrica", pondera o cirurgião bariátrico e metabólico Rodrigo Azevedo, coordenador do programa de obesidade de um grande hospital privado de São Paulo. "A cirurgia ainda tem vantagens em termos de remissão de diabetes, hipertensão e outros problemas metabólicos que vão além da simples perda de peso. Mas a distância está diminuindo. E para pacientes que não são candidatos cirúrgicos — que são muitos — os medicamentos de nova geração são uma revolução."
Há outro dado importante: os estudos com retatrutida mostram não apenas perda de peso, mas melhora significativa em praticamente todos os marcadores metabólicos monitorados. Glicemia em jejum, hemoglobina glicada, triglicerídeos, pressão arterial, circunferência abdominal, marcadores inflamatórios — os números melhoram de forma consistente e clinicamente relevante. Nos pacientes com doença hepática gordurosa não alcoólica (DHGNA) — uma condição que afeta 25 a 30% da população adulta brasileira — os resultados são especialmente dramáticos, com redução significativa do conteúdo de gordura hepática.
O impacto cardiovascular, objeto de estudo do ensaio CVOT específico para a molécula, ainda está sendo avaliado em estudos de longo prazo. Mas os dados de substitutos cardiovasculares — como a redução de pressão arterial, melhora do perfil lipídico e diminuição da inflamação sistêmica — sugerem que os benefícios cardíacos, já bem estabelecidos para o semaglutida, devem ser confirmados ou até amplificados para a retatrutida.
A QUESTÃO DA SEGURANÇA — O QUE OS DADOS DIZEM E O QUE AINDA FALTA SABER
Nenhuma discussão sobre os novos emagrecedores seria honesta sem um exame rigoroso do perfil de segurança. A eficácia impressionante precisa ser sempre ponderada pelos riscos — especialmente para uma classe de medicamentos que, por sua natureza, está destinada a ser usada por períodos longos ou indefinidos.
O perfil de efeitos adversos da retatrutida, nos estudos disponíveis, é amplamente consistente com o que já se conhece das outras moléculas da família. Os efeitos gastrointestinais — náuseas, vômitos, diarreia, constipação — são os mais comuns, especialmente nas primeiras semanas de tratamento e durante os ajustes de dose. Na fase 2, cerca de 20 a 40% dos participantes relataram náuseas de intensidade leve a moderada. A estratégia de titulação gradual — começar com doses baixas e aumentar progressivamente — reduz significativamente esses sintomas na maioria dos pacientes.
A pancreatite é um efeito adverso sério que recebe atenção especial em todos os estudos com agonistas GLP-1 e GIP. Os dados disponíveis até agora não mostram sinal preocupante específico para a retatrutida, mas o risco não pode ser descartado e a contraindicação para pacientes com histórico de pancreatite se mantém.
A questão do câncer medular de tireoide — presente como contraindicação para toda a classe de agonistas GLP-1 em animais, embora não confirmada em humanos — continua sendo monitorada. Estudos de longo prazo com semaglutida não identificaram aumento de risco em humanos, mas a precaução permanece, especialmente para pacientes com histórico familiar ou síndrome de neoplasia endócrina múltipla tipo 2.
Um dos pontos de maior discussão entre especialistas é a composição da perda de peso com os novos emagrecedores. Estudos de composição corporal mostram que parte significativa da massa perdida com agonistas de GLP-1 inclui massa muscular, além da gordura. Isso é potencialmente problemático — especialmente em idosos, para quem a sarcopenia (perda de músculo) representa um risco sério de funcionalidade e saúde geral. A combinação com atividade física resistida (musculação) é fortemente recomendada para mitigar esse efeito, mas na prática muitos pacientes não seguem essa recomendação.
"Um dos debates mais interessantes em congressos recentes é exatamente sobre preservação de massa muscular", conta a endocrinologista Patrícia Ferreira. "Existem formulações sendo estudadas que combinam agonistas GLP-1 com miostatinas — substâncias que estimulam o crescimento muscular. É a próxima fronteira: emagrecer sem perder músculo."
O tema do reganho de peso após suspensão permanece como um dos maiores desafios clínicos. Estudos de extensão e descontinuação com semaglutida e tirzepatida mostram que, após a interrupção do tratamento, os pacientes recuperam substancial parte do peso perdido — em geral, dois terços do peso perdido ao longo de um ano. Isso não é uma falha do medicamento: é reflexo da natureza crônica da obesidade, que exige tratamento contínuo, assim como diabetes ou hipertensão. Mas tem implicações enormes para a questão da adesão, do custo e da sustentabilidade do tratamento em longo prazo.
A REVOLUÇÃO DA INJEÇÃO MENSAL — CONVENIÊNCIA COMO FATOR TERAPÊUTICO
Se a retatrutida representa o avanço em eficácia, a "caneta mensal" representa o avanço em conveniência — e este pode ser o vetor que, na prática, muda mais vidas.
A adesão ao tratamento de longo prazo é um dos maiores desafios em medicina, especialmente para condições crônicas que não causam sintomas agudos imediatos. Estudos de "persistência terapêutica" com os agonistas GLP-1 semanais — como semaglutida e tirzepatida — mostram que, após 12 meses, entre 40 e 50% dos pacientes interromperam o tratamento. Após dois anos, a taxa de descontinuação pode superar 60%.
As razões são diversas: efeitos colaterais, custo, inconveniência da aplicação semanal, dificuldade de acesso ao medicamento, mudanças de rotina. A autoaplicação de uma injeção a cada sete dias, embora relativamente simples com as canetas autoaplicáveis modernas, representa um compromisso que muitos pacientes não conseguem manter indefinidamente.
A ideia de uma formulação mensal não é nova — tem sido perseguida por múltiplos laboratórios há anos. O desafio farmacológico é considerável: criar uma molécula (ou uma formulação) que seja liberada de forma estável e sustentada no organismo ao longo de 30 dias, sem picos de concentração que causem efeitos adversos logo após a aplicação e sem queda da eficácia no fim do período.
Os dados apresentados em congressos internacionais mostram que ao menos uma dessas moléculas em desenvolvimento conseguiu resolver esse desafio de forma convincente. O estudo de fase 2 apresentado em um grande congresso de endocrinologia mostrou que pacientes tratados com a formulação de longa duração — aplicada uma vez ao mês — atingiram perda de peso média de 16% ao longo de 36 semanas. Esse número é comparável ao melhor resultado obtido com semaglutida semanal (15 a 17% na dose de 2,4 mg), mas com uma frequência de dosagem quatro vezes menor.
"Dezesseis por cento em dose mensal é um resultado extraordinário porque ele resolve um problema que é, ao mesmo tempo, médico e humano", diz o clínico e especialista em medicina do estilo de vida Guilherme Saad. "Tem muita gente que não quer ou não consegue fazer uma injeção toda semana. Trabalho de campo, viagens constantes, dificuldades com autoaplicação, ansiedade com agulhas — são barreiras reais. Uma injeção por mês muda completamente o perfil de quem pode se beneficiar do tratamento."
Os estudos de fase 3 com a formulação mensal estão em andamento. Se os resultados se confirmarem em escala maior e com seguimento mais longo, a aprovação pelos principais órgãos reguladores pode acontecer até 2026 ou 2027. O potencial de mercado é enorme: não apenas os pacientes que atualmente usam formulações semanais poderiam migrar para uma opção mais conveniente, mas um grupo expressivo de pacientes que não adere ao tratamento semanal passaria a ter uma alternativa viável.
OZIVY — O BRASIL ENTRA NA CORRIDA
Enquanto o mundo aguarda a aprovação de novas moléculas de alta tecnologia, o Brasil trabalha para resolver um problema imediato e urgente: o acesso.
O semaglutida original — Ozempic, na versão para diabetes — custa, nas farmácias brasileiras, entre R$ 800 e R$ 1.200 por caneta de uso mensal (ou R$ 1.100 a R$ 1.600 por unidade de uso quinzenal na dose alta). O Wegovy, aprovado pela Anvisa para obesidade e comercializado com a dose de 2,4 mg, tem preço de tabela ainda mais elevado. Para a grande maioria da população brasileira — que vive com salários medianos de R$ 2.800 a R$ 3.500 — esse custo é simplesmente inviável.
O resultado é uma profunda desigualdade de acesso: o tratamento mais eficaz para a doença crônica mais prevalente do país está disponível apenas para uma parcela minoritária da população, principalmente a que tem planos de saúde que cobrem o medicamento (ainda raros) ou renda suficiente para arcar com o custo.
O Ozivy nasce nesse contexto. Desenvolvido pela empresa farmacêutica nacional com tecnologia de biossimilar — uma versão biologicamente equivalente ao semaglutida, produzida com processo de síntese próprio — o produto foi submetido à aprovação da Anvisa e, após passar pelas etapas regulatórias previstas, deve ser lançado comercialmente no mercado brasileiro com preço significativamente inferior ao do produto original da Novo Nordisk.
A promessa é de uma redução de preço que pode chegar a 50 ou 60% em relação ao produto de referência, o que colocaria o tratamento numa faixa de R$ 400 a R$ 600 mensais — ainda elevado para a maioria dos brasileiros, mas um passo importante na direção da democratização do acesso.
"O Brasil tem uma tradição sólida em biossimilares, especialmente na área de biotecnologia", observa a farmacêutica e especialista em regulação farmacêutica Mariana Lemos. "Insulinas, eritropoietinas, interferonas — o país já tem expertise nessa área. O Ozivy representa a aplicação dessa expertise a uma das classes farmacológicas mais importantes dos últimos anos."
Do ponto de vista regulatório, a Anvisa tem um protocolo específico para biossimilares de medicamentos biológicos, que exige demonstração de qualidade, segurança e eficácia — não necessariamente através de ensaios clínicos completos, mas sim através de estudos de bioequivalência e comparabilidade com o produto de referência. Isso encurta o caminho para o mercado, mas exige rigor técnico.
A Novo Nordisk, fabricante do semaglutida original, acompanha o processo com atenção. A empresa tem historicamente recorrido a estratégias legais e regulatórias para proteger suas patentes e dificultar a entrada de biossimilares no mercado — postura que é padrão na indústria farmacêutica, mas que tem impacto direto no acesso dos pacientes.
O MERCADO BRASILEIRO DA OBESIDADE — NÚMEROS E DESAFIOS
Para dimensionar o potencial e a urgência do Ozivy e dos novos tratamentos, é preciso entender o quadro epidemiológico brasileiro.
Segundo a Pesquisa Nacional de Saúde (PNS) mais recente, 61,7% dos adultos brasileiros estão com excesso de peso — índice de massa corporal acima de 25. Desses, 26,8% têm obesidade — IMC acima de 30 — o que representa mais de 45 milhões de brasileiros. A prevalência de obesidade grave (IMC acima de 40) é de aproximadamente 3%, ou cerca de 5 milhões de pessoas.
As projeções são sombrias: estudos epidemiológicos estimam que, mantidas as tendências atuais, mais de 40% dos brasileiros adultos poderiam ter obesidade até 2030. A transição nutricional — com o abandono progressivo de dietas tradicionais ricas em alimentos in natura e a adoção de padrões alimentares ultraprocessados — é o principal motor dessa epidemia, combinada com o sedentarismo crescente e com determinantes socioeconômicos que tornam os alimentos mais calóricos e menos nutritivos os mais baratos e acessíveis.
O custo econômico é imenso. Estudos do IESS (Instituto de Estudos de Saúde Suplementar) estimam que a obesidade e suas comorbidades — diabetes tipo 2, hipertensão arterial, síndrome metabólica, doenças cardiovasculares, apneia do sono, alguns cânceres — representam dezenas de bilhões de reais em custos para o sistema de saúde brasileiro anualmente, entre internações, medicamentos, procedimentos e produtividade perdida.
O mercado de tratamento farmacológico da obesidade no Brasil faturou, em 2023, pouco mais de R$ 2,5 bilhões — um crescimento expressivo em relação aos anos anteriores, impulsionado pelo boom do semaglutida. Com a chegada de novos produtos e potencial democratização do acesso, a estimativa é que esse mercado possa dobrar até 2027.
Mas há uma tensão fundamental nessa equação: o crescimento do mercado não significa necessariamente ampliação do acesso para os que mais precisam. Sem políticas públicas específicas — de cobertura por planos de saúde, de inclusão no SUS, de regulação de preços —, o crescimento do mercado continuará refletindo o aumento de consumo entre a população com maior poder aquisitivo, enquanto os 26 milhões de brasileiros obesos que dependem exclusivamente do sistema público de saúde permanecem sem acesso aos tratamentos mais eficazes.
O SUS E OS NOVOS EMAGRECEDORES — UMA EQUAÇÃO DIFÍCIL
A possibilidade de incorporação dos agonistas GLP-1 ao Sistema Único de Saúde é um debate que ganha força à medida que as evidências de eficácia se consolidam — mas que enfrenta obstáculos formidáveis de natureza econômica, política e técnica.
A Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS (Conitec) avalia periodicamente a inclusão de novos medicamentos no sistema público. Para uma tecnologia ser incorporada, ela precisa demonstrar não apenas eficácia e segurança, mas também custo-efetividade — ou seja, que os benefícios que produz justificam economicamente seu custo para o sistema.
No caso dos agonistas GLP-1, a equação é complexa. De um lado, está o custo elevado do tratamento — especialmente para uma condição crônica que requer uso indefinido em largas populações. De outro, está a redução de custos que o tratamento gera ao evitar internações, procedimentos cirúrgicos, amputações em diabéticos, eventos cardiovasculares, tratamentos de diálise e outros desfechos graves de saúde associados à obesidade não tratada.
Estudos de custo-efetividade realizados no Reino Unido, Canadá e Suécia — países com sistemas de saúde universais que avaliaram a incorporação do semaglutida — chegaram a conclusões divergentes dependendo da população analisada e do horizonte temporal considerado. Para pacientes com obesidade e diabetes estabelecida ou com alto risco cardiovascular, o tratamento tende a ser considerado custo-efetivo. Para populações mais jovens e saudáveis — com obesidade sem comorbidades graves — a equação é menos favorável no curto prazo, embora provavelmente favorável em horizontes temporais mais longos.
"A discussão sobre o SUS é fundamental e urgente, mas precisa ser feita com seriedade", argumenta a economista da saúde Isabela Rodrigues, pesquisadora da Fiocruz. "Não se trata de dizer simplesmente 'o medicamento é muito caro'. Trata-se de calcular quanto custa não tratar. E quando você coloca na conta o custo das internações evitadas, dos AVCs prevenidos, das amputações que não acontecerão, do ganho de produtividade — às vezes o medicamento 'caro' se revela um investimento que o sistema não pode se dar ao luxo de não fazer."
A chegada de biossimilares como o Ozivy muda substancialmente essa equação. Com preços menores, a razão custo-efetividade melhora, tornando a incorporação mais factível. Países como Bangladesh, Índia e alguns países africanos já têm estratégias de acesso a semaglutida biossimilar para populações de baixa renda — experiências que o Brasil pode estudar para construir sua própria política.
A CORRIDA FARMACÊUTICA GLOBAL — O QUE MAIS VEM POR AÍ
A retatrutida e a formulação mensal não são os únicos desenvolvimentos que merecem atenção no pipeline de novos medicamentos para obesidade. O campo está mais ativo do que nunca, com dezenas de moléculas em diferentes fases de desenvolvimento.
Agonistas GLP-1/GIP orais: A Novo Nordisk e outras empresas estão avançando com versões orais de agonistas de GLP-1. O semaglutida oral (Rybelsus) já existe para diabetes, em doses menores. Formulações orais de dose mais alta, específicas para obesidade, estão em estudos de fase 3. A comodidade de um comprimido em vez de uma injeção pode expandir ainda mais a adesão e o acesso.
Peptídeo C-terminal do glucagon (glucagon truncado): Pesquisadores de universidades americanas e europeias estão investigando fragmentos do glucagon que mantêm os efeitos metabólicos benéficos (aumento do gasto energético, lipólise hepática) sem os efeitos hiperglicemiantes. Se funcionarem, podem ser adicionados às combinações existentes para turbinar ainda mais a eficácia.
Agonistas do receptor de amilina: A amilina é um hormônio co-secretado com a insulina pelo pâncreas e tem papel na regulação do apetite e da glicemia. Análogos de amilina de longa duração estão em estudo como adjuntos ou alternativas aos agonistas GLP-1, especialmente para pacientes com intolerância gastrointestinal às moléculas existentes.
Inibidores de GIPR (bloqueio do receptor GIP): Paradoxalmente, enquanto alguns pesquisadores exploram a ativação do GIP (como na tirzepatida e retatrutida), outros estão investigando o bloqueio desse receptor como estratégia alternativa. A empresa Amgen tem um anticorpo monoclonal que bloqueia o receptor GIP — a lógica sendo que, em alguns contextos metabólicos, o GIP pode ter efeitos lipogênicos que o bloqueio poderia evitar. Os resultados iniciais são promissores.
Terapias genéticas e epigenéticas: No horizonte mais distante, pesquisadores estão explorando a possibilidade de modificações genéticas e epigenéticas que "reprogramem" de forma duradoura o metabolismo energético. É ciência ainda em fase experimental, mas os avanços em edição gênica com CRISPR e em epigenômica terapêutica abrem perspectivas que, décadas atrás, seriam consideradas ficção científica.
"Estamos vivendo a era mais fértil da história da farmacologia metabólica", afirma o pesquisador em farmacologia clínica Augusto Torres, do Instituto Nacional de Cardiologia. "Em dez anos, teremos opções que hoje mal conseguimos imaginar. A pergunta não é mais se vamos controlar a obesidade farmacologicamente. É como vamos garantir que esse controle chegue a todos."
O DEBATE QUE NINGUÉM QUER TER — MEDICALIZAÇÃO, ESTILO DE VIDA E EQUIDADE
A explosão dos medicamentos para obesidade tem alimentado um debate que vai muito além da farmacologia e da medicina clínica. É um debate sobre como sociedade compreende a obesidade, sobre os limites entre doença e estilo de vida, sobre as responsabilidades individuais e coletivas, e sobre quem — e como — define o que é um corpo saudável.
De um lado, há o argumento científico consolidado: a obesidade é uma doença crônica, com base biológica e genética robusta, influenciada por fatores ambientais e sociais que em grande medida escapam ao controle individual. A narrativa simplista de que basta "comer menos e se mover mais" ignora décadas de ciência demonstrando que o organismo obeso tem alterações hormonais, inflamatórias e neurológicas profundas que tornam a perda e a manutenção do peso extraordinariamente difíceis sem intervenção médica.
Do outro lado, há preocupações legítimas sobre a medicalização excessiva de condições que têm raízes sociais, ambientais e econômicas. A pergunta que alguns pesquisadores fazem é: ao focarmos tanto no medicamento que trata a obesidade no indivíduo, estamos deixando de pressionar por mudanças sistêmicas — regulação da indústria alimentícia, urbanismo que favorece a atividade física, políticas de segurança alimentar — que são as únicas capazes de enfrentar a epidemia em escala populacional?
"O medicamento certo para o paciente certo, administrado no contexto de cuidado adequado, é um bem", diz a nutricionista e professora de saúde coletiva Denise Barros, da Universidade de Brasília. "Mas se usarmos os emagrecedores injetáveis como substituto para políticas públicas de saúde e alimentação, vamos tratar sintomas enquanto a causa continua intacta. E vamos fazer isso de forma desigual, porque quem vai ter acesso ao medicamento será quem pode pagar."
Há também o debate sobre o uso desses medicamentos por pessoas que não têm obesidade — que querem perder "alguns quilinhos" por estética, sem critério clínico que justifique o tratamento. O fenômeno, que já ocorre amplamente com o Ozempic em contextos de uso off-label, levanta questões éticas e práticas: o que acontece quando medicamentos com efeitos adversos sérios são usados por populações sem a relação risco-benefício que justificou sua aprovação? E como isso afeta o acesso para quem realmente precisa?
A Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM) publicou notas de posicionamento sobre o uso adequado dos agonistas GLP-1, reforçando que o tratamento deve ser indicado por médico especializado, para pacientes com critérios clínicos definidos — principalmente IMC elevado com comorbidades ou IMC muito elevado sem elas — e sempre como parte de um programa de modificação do estilo de vida que inclui acompanhamento nutricional e atividade física.
A VOZ DOS PACIENTES — ENTRE A ESPERANÇA E A FRUSTRAÇÃO
Para além dos dados de congressos e dos debates acadêmicos, há histórias humanas que precisam ser ouvidas.
Simone, 47 anos, professora de escola pública em Recife, tem obesidade grau 2 e diabetes tipo 2 há dez anos. "Eu nunca fui sedentária, sempre cuidei da alimentação, mas meu peso não parava de subir. Eu ouvi de tudo: 'você está comendo errado', 'você não está se esforçando'. Quando meu médico receitou o semaglutida, eu chorei de alívio — finalmente alguém estava levando meu problema a sério como uma doença." Simone perdeu 14 quilos em oito meses. O problema: o plano de saúde não cobre o medicamento. O custo mensal de R$ 1.100 consome quase metade do seu salário. "Não sei por quanto tempo vou conseguir manter."
Carlos, 38 anos, engenheiro em São Paulo, usou tirzepatida por seis meses e perdeu 21 quilos. "Mudou minha vida. Minha apneia melhorou, minha pressão normalizou, eu voltei a fazer exercício porque me sinto bem. Mas eu pago R$ 1.600 por mês. Tenho consciência de que sou privilegiado por poder pagar. E isso me incomoda."
Viviane, 52 anos, psicóloga do Rio de Janeiro, tentou semaglutida e teve reações gastrointestinais severas que a obrigaram a suspender o tratamento. "Espero ansiosa por opções com menor incidência de náuseas, ou por alternativas orais. A ciência está avançando, mas para quem não tolera o atual tratamento, parece lento."
Esses três relatos — de eficácia, de custo proibitivo e de intolerância — mapeiam com precisão os três principais desafios que os novos medicamentos precisam responder: eficácia confirmada, acesso ampliado e perfil de tolerabilidade melhorado.
CARDIOLOGISTAS ENTRAM NO DEBATE — A DIMENSÃO CARDIOVASCULAR
Um dos desenvolvimentos mais significativos na ciência dos agonistas GLP-1 não está no campo da obesidade em si, mas na cardiologia. O estudo SELECT, publicado no New England Journal of Medicine em 2023, demonstrou que o semaglutida reduziu em 20% o risco de eventos cardiovasculares maiores — infarto, AVC e morte cardiovascular — em pacientes obesos ou com sobrepeso que não tinham diabetes, mas tinham doença cardiovascular estabelecida.
Foi um resultado transformador. Pela primeira vez na história, um medicamento recebeu indicação de redução de risco cardiovascular em pacientes obesos sem diabetes. Isso alargou enormemente o universo de pacientes para os quais o tratamento é recomendado — e criou uma nova fronteira entre a endocrinologia e a cardiologia.
"O SELECT mudou a prática cardiológica", afirma o cardiologista e pesquisador Paulo Rocha, coordenador de um serviço de prevenção cardiovascular em Porto Alegre. "Eu agora tenho indicação para prescrever semaglutida — e em breve outros da família — para pacientes que vêm ao meu consultório por risco cardiovascular, mesmo sem diagnóstico formal de obesidade como problema principal. É uma virada de paradigma."
Para a retatrutida, os estudos cardiovasculares específicos ainda estão em andamento. Mas a presença de ação glucagônica — que historicamente levantou preocupações sobre efeitos cardíacos — está sendo acompanhada com atenção especial. Os dados intermediários disponíveis são tranquilizadores, mas os estudos de desfecho cardiovascular de longo prazo serão decisivos para estabelecer o perfil cardíaco completo da molécula.
PARTE XIII: ALÉM DO PESO — A NOVA FRONTEIRA DAS INDICAÇÕES
Uma das dimensões mais fascinantes da evolução dos agonistas GLP-1 é a quantidade de indicações terapêuticas que vão emergindo à medida que a ciência avança. O que começou como medicamento para diabetes — e depois se expandiu para obesidade — está mostrando benefícios em áreas que nem sempre estão diretamente ligadas ao peso.
O NASH/MASH (esteatohepatite não alcoólica / esteatohepatite associada à disfunção metabólica) — uma condição hepática grave que pode evoluir para cirrose e que afeta dezenas de milhões de brasileiros — tem se mostrado muito responsiva aos agonistas GLP-1, especialmente às moléculas com ação glucagônica como a retatrutida. A FDA aprovou o semaglutida para MASH em 2024, e estudos com retatrutida mostram resultados ainda mais expressivos nessa indicação.
A doença renal crônica associada ao diabetes e à obesidade também mostrou resposta favorável em estudos recentes com semaglutida, que conseguiu retardar a progressão da doença renal em populações específicas.
Há ainda estudos preliminares — ainda em fase inicial, com muito a ser confirmado — investigando potencial benefício em condições como síndrome do ovário policístico (SOP), doença de Alzheimer (onde a disfunção metabólica cerebral pode ser um alvo), dependência de substâncias e até doença de Parkinson. A biologia do GLP-1 no sistema nervoso central é surpreendentemente rica, e muitos pesquisadores acreditam que estamos apenas começando a entender o potencial neurológico dessas moléculas.
"O GLP-1 não é apenas um hormônio do pâncreas e do intestino", diz o neurocientista Marcelo Coutinho, do Instituto de Biofísica da UFRJ. "É um sinal metabólico que age no cérebro, no coração, nos rins, no fígado, no músculo. Estamos lidando com um sistema fisiológico muito mais amplo do que inicialmente pensávamos."
O QUE OS NÚMEROS REAIS SIGNIFICAM NA PRÁTICA
Uma coisa são os resultados dos ensaios clínicos, conduzidos em populações selecionadas, com controle rigoroso das condições de tratamento. Outra é o que acontece no mundo real — quando o medicamento é prescrito para pacientes heterogêneos, com diferentes condições de saúde, hábitos de vida e acesso a cuidados complementares.
Os estudos de vida real (RWE — real world evidence) com semaglutida e tirzepatida mostram resultados consistentes, porém geralmente um pouco inferiores aos dos ensaios clínicos — o que é esperado e normal. A perda média de peso em contexto de vida real tende a ser de 10 a 18%, dependendo da dose, da população e do suporte multidisciplinar disponível.
O suporte multidisciplinar é um fator determinante frequentemente subestimado na discussão pública sobre os novos emagrecedores. Os melhores resultados — tanto em eficácia quanto em segurança e sustentabilidade — são obtidos quando o medicamento é parte de um programa estruturado que inclui acompanhamento nutricional regular, suporte para atividade física, avaliação psicológica (para os muitos pacientes em que o comportamento alimentar tem componente emocional significativo) e monitoramento médico periódico.
"O medicamento funciona melhor quando é o contexto do tratamento, não o tratamento em si", resume a nutricionista clínica e pesquisadora Renata Boff, de Porto Alegre. "Quando o paciente recebe a caneta e vai embora sem mais nada, os resultados são muito menores do que quando ele tem uma equipe ao redor dele."
Essa exigência de estrutura multidisciplinar é, ironicamente, outro fator de desigualdade de acesso. Quem pode pagar pelo medicamento, em geral, também pode pagar pelo acompanhamento. Quem não pode pagar pelo medicamento, tampouco tem acesso à equipe de suporte.
PERSPECTIVAS — O QUE OS PRÓXIMOS ANOS PROMETEM
A curva de desenvolvimento científico no campo da obesidade farmacológica sugere que os próximos cinco anos serão de transformações ainda mais rápidas do que os cinco anteriores.
A retatrutida deve ter os dados de fase 3 completos publicados até o fim de 2025, com possível submissão para aprovação ao FDA e à Anvisa no início de 2026. Se aprovada, teremos, pela primeira vez, um medicamento com eficácia consistentemente próxima à cirurgia bariátrica para um grupo expressivo de pacientes.
As formulações mensais, orais e de depósito subcutâneo estão em diferentes fases de desenvolvimento em múltiplos laboratórios. A competição deve acelerar tanto a inovação quanto a redução de preços.
O Ozivy e outros biossimilares que devem emergir no mercado brasileiro ao longo dos próximos dois a três anos têm potencial de democratização significativo — especialmente se combinados com políticas públicas de acesso.
E, no horizonte mais distante, os estudos das combinações com preservação muscular, as formulações orais de alta dose e as terapias baseadas em biologia molecular podem produzir resultados que tornarão obsoletos até os medicamentos que hoje chamamos de revolucionários.
"Quando eu entrei na medicina, a única ferramenta que tínhamos para a obesidade grave era a cirurgia", lembra o endocrinologista Carlos Henrique Matos. "Hoje, tenho no meu arsenal farmacológico moléculas que produzem resultados antes inimagináveis. E a velocidade com que o campo evolui me diz que, em dez anos, teremos opções ainda mais eficazes, mais seguras e, espero sinceramente, mais acessíveis. A biologia sempre venceu. Desta vez, ela está do nosso lado."
CONSIDERAÇÕES FINAIS: EFICÁCIA SEM EQUIDADE É PROGRESSO A METADE
A nova era dos emagrecedores é, genuinamente, uma das histórias mais importantes da medicina contemporânea. Não há exagero em dizer que a classe dos agonistas GLP-1 — com todas as suas evoluções e ramificações — representa uma virada de paradigma equivalente, em seu campo, ao que os antibióticos representaram para as doenças infecciosas ou os anti-hipertensivos para as doenças cardiovasculares.
Os números são reais. Os benefícios são documentados. A ciência, robusta.
Mas uma lição que a história da medicina ensina repetidamente é que a descoberta de um tratamento eficaz é apenas metade da batalha. A outra metade é garantir que esse tratamento chegue a quem mais precisa.
No Brasil, onde a obesidade tem cor, tem classe social e tem endereço — afetando desproporcionalmente a população negra, a periférica, a feminina e a de menor renda —, um tratamento que custa mais de R$ 1.000 por mês e não tem cobertura universal não é, verdadeiramente, uma solução para o problema que se propõe a resolver. É uma solução para uma fração do problema.
A chegada do Ozivy é um passo. As perspectivas de incorporação ao SUS são um horizonte necessário. A regulação do marketing e o combate ao uso off-label irresponsável são medidas urgentes. E as políticas públicas estruturais — de alimentação, de urbanismo, de acesso a alimentos saudáveis — são a fundação sem a qual nenhum medicamento, por mais eficaz que seja, conseguirá mudar o cenário epidemiológico do país.
A corrida dos emagrecedores entra, de fato, em nova era. Cabe à sociedade, ao sistema de saúde e ao poder público garantir que essa era não seja apenas a dos que podem pagar.
ENTENDA AS PRINCIPAIS MOLÉCULAS DA NOVA GERAÇÃO
Semaglutida (Ozempic/Wegovy — Novo Nordisk): Agonista GLP-1 semanal. Aprovado para diabetes (2017) e obesidade (2021). Perda de peso média de 15% nos estudos de fase 3. Estudo SELECT demonstrou redução de 20% em eventos cardiovasculares maiores.
Tirzepatida (Mounjaro/Zepbound — Eli Lilly): Agonista duplo GLP-1/GIP, semanal. Aprovado para diabetes (2022) e obesidade (2023). Perda de peso média de até 22,5% na maior dose.
Retatrutida (em desenvolvimento — Eli Lilly): Agonista triplo GLP-1/GIP/Glucagon, semanal. Ainda em fase 3. Perda de peso de 24-30% nos estudos de fase 2. Potencial de aprovação 2026-2027.
Formulação mensal (em desenvolvimento — múltiplos laboratórios): Formulações de longa duração para dose mensal. Resultados de fase 2 mostram 16% de perda de peso. Potencial aprovação 2026-2027.
Ozivy (biossimilar nacional em desenvolvimento): Biossimilar de semaglutida. Processo regulatório em andamento na Anvisa. Preço estimado 50-60% inferior ao produto original.
QUEM TEM INDICAÇÃO PARA ESSES MEDICAMENTOS?
Segundo a Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM), os agonistas GLP-1 têm indicação para:
Pacientes com IMC ≥ 30 kg/m² (obesidade), independente de comorbidades, quando houver falha de tratamento não farmacológico.
Pacientes com IMC ≥ 27 kg/m² (sobrepeso com comorbidade) na presença de pelo menos uma condição associada — como diabetes tipo 2, hipertensão, dislipidemia, apneia do sono, doença cardiovascular estabelecida ou doença hepática gordurosa.
O uso deve ser sempre acompanhado de mudanças de estilo de vida e supervisionado por médico habilitado. O uso estético sem critério clínico não é recomendado.
CRONOLOGIA DA REVOLUÇÃO DOS EMAGRECEDORES
2005 — Aprovação do exenatida (Byetta), primeiro agonista GLP-1 para diabetes, de aplicação duas vezes ao dia.
2012 — Liraglutida (Victoza) aprovada para diabetes; versão para obesidade (Saxenda) aprovada em 2014.
2017 — Semaglutida semanal (Ozempic) aprovada para diabetes.
2021 — Semaglutida em dose alta (Wegovy) aprovada para obesidade nos EUA. Estudos de Fase 3 mostram 15% de perda de peso.
2022 — Tirzepatida (Mounjaro) aprovada para diabetes. Estudo SURMOUNT-1 mostra 22,5% de perda de peso.
2023 — Tirzepatida (Zepbound) aprovada para obesidade. Estudo SELECT confirma benefício cardiovascular do semaglutida em não diabéticos.
2024 — Resultados de fase 2 da retatrutida mostram até 24% de perda de peso. Semaglutida aprovado para MASH (doença hepática). Primeiros dados de formulações mensais apresentados em congressos.
2025-2026 — Esperados: dados de fase 3 da retatrutida; dados de formulação mensal; lançamento do Ozivy no Brasil.
Escrito por: Equipe Editorial Saldo e Vida Conteúdo focado em transparência financeira e bem-estar integral.
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