Cerebras Systems: Vale a Pena Investir na Empresa que Desafia a Nvidia?
FINANÇAS
5/20/202611 min ler


Uma análise completa da startup que construiu o maior chip do mundo, fez o maior IPO de tecnologia de 2026 e agora desperta interesse — e dúvidas — de investidores ao redor do globo.
A Origem: Como Tudo Começou
A história da Cerebras Systems começa no Vale do Silício, em 2016, quando um grupo de engenheiros experientes decidiu atacar um dos maiores gargalos da inteligência artificial: o hardware. O grupo havia trabalhado junto antes — todos eram veteranos da SeaMicro, empresa de servidores de alto desempenho que Andrew Feldman e Gary Lauterbach fundaram em 2007 e venderam para a AMD em 2012 por cerca de US$ 334 milhões.
Após um período na AMD, onde liderou a divisão de soluções para data centers, Feldman fez uma pausa e voltou ao Vale com uma ambição muito maior. Em março de 2016, ele reuniu quatro ex-colegas — Gary Lauterbach (CTO), Sean Lie (arquiteto-chefe de hardware), Michael James (arquiteto-chefe de software) e Jean-Philippe Fricker (arquiteto de sistemas) — e fundaram a Cerebras Systems.
O objetivo era ousado ao ponto de parecer ingênuo: construir um processador inteiramente novo, do zero, otimizado para inteligência artificial, que eliminasse os gargalos fundamentais das GPUs da Nvidia. No primeiro dia juntos, os fundadores escreveram no quadro branco que queriam criar algo importante o suficiente para entrar no Computer History Museum. Spoiler: conseguiram.
O Homem por Trás da Empresa: Andrew Feldman
Andrew Feldman é o CEO e cofundador da Cerebras, e provavelmente o rosto mais reconhecível da empresa. Nascido em Palo Alto, Califórnia, ele se formou em Economia e Ciência Política na Universidade de Stanford, onde também concluiu um MBA. É um empreendedor serial com um histórico notável:
Molecular Applications Group (início dos anos 90): sua primeira empresa de tecnologia foi vendida por US$ 280 milhões enquanto ele ainda terminava o MBA.
Riverstone Networks: VP de marketing durante o IPO da empresa na Nasdaq.
Force10 Networks: VP de produto e marketing; a empresa foi vendida para a Dell por cerca de US$ 800 milhões.
SeaMicro (2007–2012): co-fundou e liderou como CEO até a venda para a AMD por US$ 334 milhões.
AMD (2012–2014): Corporate VP e General Manager na divisão de Data Center.
Cerebras Systems (2016–presente): co-fundador e CEO.
Com o IPO de maio de 2026, a participação de Feldman na empresa foi avaliada em aproximadamente US$ 1,9 bilhão, transformando-o num bilionário. Mesmo a Elon Musk tentou comprar a Cerebras em 2018 — e foi recusado.
A Tecnologia: O Chip do Tamanho de um Prato de Jantar
A grande aposta da Cerebras é o Wafer-Scale Engine (WSE), o maior processador já construído na história da indústria de semicondutores. Enquanto os chips da Nvidia têm o tamanho de uma unha, o WSE ocupa um wafer inteiro de silício — uma superfície de 215 mm², o equivalente a um prato de jantar.
Para entender a diferença: um chip convencional é fabricado cortando um wafer de silício em dezenas de pedaços menores. A Cerebras ignora essa etapa e usa o wafer inteiro como um único processador. O resultado é uma máquina com escala sem precedentes.
Evolução das Gerações:
WSE-1 (2019): O primeiro chip com 1,2 trilhão de transistores e 400.000 núcleos de processamento. Alimentava o CS-1, o primeiro supercomputador da empresa.
WSE-2 (2021): Saltou para 2,6 trilhões de transistores e 850.000 núcleos. Capaz de suportar modelos de IA com mais de 120 trilhões de parâmetros. Tão revolucionário que o Computer History Museum o expôs como "uma conquista épica na fabricação de chips."
WSE-3 (2024): A geração atual, com 4 trilhões de transistores e 900.000 núcleos otimizados para IA, fabricado pelo processo de 5nm da TSMC. Alimenta o CS-3, o supercomputador de IA da empresa. A Cerebras afirma que o WSE-3 é 57 vezes maior que a maior GPU da Nvidia e tem 50 vezes mais transistores.
Por Que Isso Importa?
O grande diferencial da arquitetura wafer-scale está na velocidade de inferência — o processo pelo qual um modelo de linguagem "pensa" e gera respostas. Como o chip tem toda a memória e o processamento integrados em um único substrato, ele elimina a latência gerada pelo tráfego de dados entre chips separados. A Cerebras afirma que seu sistema pode ser até 15 vezes mais rápido que soluções baseadas em GPU para inferência, e em certos casos, 1.000 vezes mais rápido.
O CFO da empresa, Bob Komin, disse ao CNBC na semana do IPO: "Para nosso produto de inferência rápida, a demanda é tão grande que nosso maior desafio é o fornecimento. Estamos esgotados até 2027."
A Jornada de Financiamento: Do Stealth à Bilionária
A Cerebras levantou capital de forma agressiva ao longo de uma década:
Série A (maio de 2016): US$ 27 milhões, liderada por Benchmark, Foundation Capital e Eclipse Ventures, com avaliação de ~US$ 67 milhões. A empresa ainda estava em modo stealth.
Série B (dez. 2016): Liderada pela Coatue Management. Ainda em sigilo.
Série C (jan. 2017): Liderada pela VY Capital.
Série D (nov. 2018): US$ 88 milhões. Entrou no status de unicórnio (~US$ 1,7 bilhão). Foi quando revelaram publicamente o que estavam construindo.
Série E (abr. 2019): Fundadores como Altimeter e Coatue aumentaram suas apostas.
Série F (nov. 2021): US$ 250 milhões, liderada pela Alpha Wave e pelo Abu Dhabi Growth Fund. Avaliação superou US$ 4 bilhões.
Série G (set. 2025): US$ 1,1 bilhão. Liderada pela Fidelity Management. Avaliação: US$ 8,1 bilhões.
Série H (fev. 2026): US$ 1 bilhão, liderada pela Tiger Global, com avaliação de US$ 23 bilhões — quase triplicando em cinco meses.
Total levantado em capital privado: aproximadamente US$ 2,8 bilhões. Os maiores acionistas institucionais incluem Fidelity (11,3%), Benchmark (9,5%), Foundation Capital (8,3%), Eclipse (7,3%) e Alpha Wave (6,5%).
O IPO: O Maior de 2026 — e da Última Década em Tech
A história do IPO da Cerebras é uma saga em si mesma. A empresa primeiro tentou abrir capital em setembro de 2024, mas retirou o pedido pouco mais de um ano depois por causa de um problema crítico: quase toda a sua receita vinha de um único cliente — a G42, empresa de IA de Abu Dhabi com ligações com o governo dos Emirados Árabes Unidos. O CFIUS (Comitê sobre Investimento Estrangeiro nos EUA) abriu uma revisão, e a empresa optou por recuar.
Entre o primeiro e o segundo pedido de IPO, a Cerebras trabalhou para diversificar sua base de clientes, assinou um contrato de US$ 20 bilhões com a OpenAI e fechou um acordo com a Amazon Web Services. Com as finanças melhoradas — receita de US$ 510 milhões em 2025, alta de 76% — e a questão regulatória resolvida em março de 2025, o caminho estava aberto.
Em 14 de maio de 2026, a Cerebras estreou na Nasdaq sob o ticker CBRS. Os números foram espetaculares:
Preço de IPO: US$ 185 por ação (bem acima da faixa original de US$ 115–125, que foi revisada para US$ 150–160 e depois superada no precificamento final)
Abertura: US$ 350 — quase o dobro do preço de IPO
Alta intraday: US$ 386
Fechamento no 1º dia: US$ 311,07 (+68,2%)
Capital captado: US$ 5,55 bilhões (30 milhões de ações)
Market cap no fechamento: ~US$ 67 bilhões
Maior IPO de tech dos EUA desde o Uber em 2019
Demanda: 20 vezes maior que a oferta disponível
A participação do CEO Andrew Feldman no IPO valia cerca de US$ 1,9 bilhão. A do CTO Sean Lie, aproximadamente US$ 1 bilhão.
Curiosidade revelada dias antes do IPO: a Arm e a SoftBank tentaram adquirir a Cerebras antes da abertura de capital — e foram recusadas.
Os Clientes e Contratos: Quem Está Apostando na Cerebras?
A Cerebras tem uma lista de clientes impressionante, embora ainda concentrada:
OpenAI: Contrato de US$ 20 bilhões, com fornecimento de 750 megawatts de capacidade de computação até 2028. É o maior cliente individual e lançou o primeiro modelo de IA rodando em chips Cerebras em 2026.
Amazon Web Services (AWS): Anunciou em março de 2026 que integrará chips Cerebras em seus data centers para que desenvolvedores possam rodar modelos de IA.
Meta Platforms: Usa a tecnologia Cerebras para cargas de trabalho de IA.
GlaxoSmithKline e AstraZeneca: Pesquisa farmacêutica e descoberta de medicamentos.
Mayo Clinic: Computação de saúde de alta performance.
Lawrence Livermore National Laboratory e Sandia National Laboratories: Aplicações de defesa e simulação nuclear.
Argonne National Laboratory: Pesquisa científica premiada com o Gordon Bell Special Prize.
Porém, há um alerta importante: em 2025, apenas dois clientes responderam por 86% da receita — o principal deles sendo a Mohamed bin Zayed University of Artificial Intelligence (MBZUAI), nos Emirados Árabes Unidos, ligada à G42. A concentração de clientes é um dos maiores riscos da empresa neste momento.
Os Números: Como Está a Saúde Financeira?
A receita cresceu mais de 2.000% entre 2022 e 2025. O salto para lucro líquido em 2025 foi notável, mas analistas alertam: o lucro GAAP foi influenciado por eventos não-recorrentes contábeis. No nível operacional, a empresa ainda teve uma perda de US$ 145,9 milhões, resultado do enorme gasto em P&D (48% da receita). O fluxo de caixa operacional foi negativo em US$ 10,1 milhões, quase no ponto de equilíbrio.
O backlog de receita ao final de 2025 estava em US$ 24,6 bilhões — e a empresa estima reconhecer 15% disso em 2026–2027, o que implica uma receita anualizada de quase US$ 1,85 bilhão para os próximos dois anos.
A Valuation: Cara, Muito Cara ou Justificável?
Este é o ponto mais controverso para investidores. Após a estreia no mercado, a ação da Cerebras negocia a múltiplos que desafiam qualquer métrica convencional:
Preço/Vendas (trailing): ~67x sobre a receita de 2025 (US$ 510 mi)
EV/Sales: ~120x (segundo análise do Seeking Alpha)
P/E: ~202x
Esses números são entre 3.000% e 5.000% acima das medianas do setor de semicondutores. Para referência, a própria Nvidia — que cresceu 65% ao ano com receita de US$ 215 bilhões — negocia a cerca de 28x lucros futuros.
Mas há um outro ângulo: usando o backlog projetado (~US$ 1,85 bilhão em receita anualizada para 2026–2027), o múltiplo de P/Vendas cai para cerca de 19x com base no market cap pós-IPO. Ainda caro para os padrões tradicionais, mas não absurdo para uma empresa de crescimento acelerado em um setor quente.
A questão é: o crescimento justifica o preço? Se a Cerebras conseguir transformar seu backlog em receita recorrente, diversificar clientes e expandir margens, os múltiplos atuais podem se comprimir naturalmente. Se não, a queda pode ser brutal.
Os Riscos: O Que Pode Dar Errado?
Concentração de Clientes
O risco mais imediato. Com 86% da receita de 2025 vindo de dois clientes, qualquer mudança nos contratos pode impactar drasticamente os resultados.
Warrants da OpenAI
A OpenAI possui warrants para comprar até 10% da empresa. Se exercidos, isso diluiria significativamente os acionistas atuais.
Competição Feroz
A Cerebras enfrenta concorrência em múltiplas frentes:
Nvidia: Dominante no mercado com ecossistema CUDA profundamente enraizado e décadas de vantagem em software.
Google (TPUs), Amazon (Trainium), Microsoft e Meta: Todos desenvolvendo ASICs próprios para uso interno.
Groq: O concorrente mais próximo em termos de arquitetura — e a Nvidia pagou US$ 20 bilhões pelos ativos da Groq em dezembro de 2025, sinalizando que quer entrar nesse espaço.
SambaNova, Rebellions, D-Matrix: Startups emergentes no mesmo segmento.
Dependência da TSMC
Seus chips são fabricados pela TSMC no processo de 5nm — não o mais avançado (que é 2nm). Além disso, toda a produção avançada ainda fica em Taiwan, com riscos geopolíticos associados.
Custo e Escala Dos Chips
Cada nó CS-3 custa até US$ 3 milhões e consome 25 kW de energia. O tamanho físico e o consumo energético são limitações reais para certos ambientes de implantação.
Volatilidade Pós-IPO
Após subir 68% no primeiro dia, a ação caiu ~10% no segundo. O Jim Cramer da CNBC chegou a dizer que "tudo sobre a alta da Cerebras ontem estava errado," alertando que a valuation pós-IPO é difícil de justificar.
Estrutura de Dupla Classe
Insiders retêm poder de voto desproporcional, o que pode afetar a governança corporativa e limitar a influência de acionistas externos.
Os Pontos Positivos: Por Que a Empresa Empolga?
Tecnologia Genuinamente Diferenciada
O WSE não é apenas um chip mais rápido — é uma arquitetura radicalmente diferente que resolve problemas de inferência de maneira que as GPUs da Nvidia não conseguem. A conquista técnica foi tão reconhecida que o Computer History Museum exibiu o WSE-2 como "um marco na história do computador."
Crescimento Explosivo
A receita saiu de US$ 24,6 milhões em 2022 para US$ 510 milhões em 2025 — um crescimento de mais de 2.000% em três anos. A taxa de 76% ao ano mantida em 2025 é notável para uma empresa nesse tamanho.
Backlog Monumental
US$ 24,6 bilhões em receita contratada ao final de 2025 dá visibilidade extraordinária para os próximos anos. Mesmo reconhecendo apenas 15% disso em 2026–2027, a empresa tem uma base sólida de crescimento assegurado.
Parceiros Estratégicos de Peso
OpenAI, Amazon AWS e Meta não são clientes qualquer. São validações de que a tecnologia funciona em escala de produção real. O fato de a OpenAI ter lançado modelos rodando exclusivamente em chips Cerebras é um endosso poderoso.
Momento Perfeito: Era da Inferência
O mercado de IA está migrando da fase de treinamento (onde a Nvidia domina) para a fase de inferência (onde a Cerebras brilha). Agentes de IA que tomam decisões em tempo real precisam de chips que respondam rapidamente — exatamente o que o WSE oferece.
Demanda Maior que Oferta
Estar "esgotado até 2027" é um problema bom de ter. Sugere que, ao contrário de muitas startups que buscam clientes, a Cerebras está travada apenas pela capacidade de produção.
Fundadores Provados
Feldman e seu time não são estreantes. Eles já venderam empresas por centenas de milhões, entregaram produtos que chegaram a museus e construíram a Cerebras com disciplina técnica durante quase uma década antes de abrir capital.
Análise Final: Vale a Pena Investir?
Essa é a pergunta de US$ 67 bilhões — e a resposta honesta é: depende do seu perfil de risco e horizonte de tempo.
Para o Investidor Agressivo de Longo Prazo:
A Cerebras representa uma aposta em uma arquitetura alternativa de IA que pode se tornar infraestrutura essencial na era da inferência. Se a empresa conseguir:
Diversificar sua base de clientes além de dois grandes compradores
Converter seu backlog de US$ 24,6 bilhões em receita consistente
Expandir margens operacionais com escala
Manter vantagem técnica frente aos competidores
...então a ação atual pode parecer barata em 5 anos, assim como a Nvidia parecia cara em 2020.
Para o Investidor Conservador:
A valuation atual é extrema — ~67x receita trailing e 202x P/E — em uma empresa com riscos reais de concentração de clientes, competição crescente e estrutura de governança favorável a insiders. A segunda semana de negociações já mostrou volatilidade. Aguardar os primeiros resultados trimestrais como empresa pública (previstos para o 2T26) antes de entrar parece a escolha mais prudente.
O Consenso do Mercado:
Analistas do Motley Fool, Seeking Alpha e MarketWise convergem para um ponto: a Cerebras é uma das histórias mais interessantes do setor de IA, mas o preço após o IPO já precificou muito crescimento futuro. A recomendação mais comum é esperar uma correção para entrar, já que a empolgação do IPO geralmente gera volatilidade nas primeiras semanas. A Cerebras Systems é uma empresa real, com tecnologia real, crescimento real e contratos reais. Não é uma aposta especulativa vazia — é uma das mais sérias tentativas de criar uma alternativa à hegemonia da Nvidia no hardware de IA. O WSE é uma conquista de engenharia genuína, e o time de fundadores tem um histórico que inspira confiança.
O problema não é a empresa. O problema é o preço.
Após saltar 68% no primeiro dia, negociar a 67x receita trailing exige que tudo corra perfeitamente — crescimento acelerado, diversificação de clientes, expansão de margens. Qualquer tropeço pode resultar em queda abrupta.
Para quem está de fora: Monitorar os primeiros resultados como empresa pública e aguardar uma janela de entrada mais racional pode ser a estratégia mais inteligente.
Para quem já tem posição: O backlog de US$ 24,6 bilhões e a parceria com OpenAI/AWS dão suporte para manter com horizonte longo.
Em resumo: A Cerebras pode ser o investimento da década em chips de IA — ou pode ser mais um caso de exuberância irracional de IPO. A diferença entre esses dois cenários está nos próximos dois ou três relatórios trimestrais.
Escrito por: Equipe Editorial Saldo e Vida Conteúdo focado em transparência financeira e bem-estar integral.
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