Cosmeticorexia: A Obesessão Pela Pele Perfeita que Está Adoecendo Nossas Crianças

SAÚDE E BEM-ESTAR

6/9/202630 min ler

Pediatras, dermatologistas e psicólogos acendem o alerta para uma nova epidemia silenciosa: meninas cada vez mais novas construindo rotinas de skincare com retinol, ácidos e hormônios vegetais — e pagando um preço altíssimo por isso.

O FENÔMENO TEM UM NOME — E ELE ESTÁ CRESCENDO

Ela tinha oito anos quando ganhou o primeiro sérum de vitamina C. Foi presente de aniversário, escolhido cuidadosamente pela própria criança após semanas acompanhando vídeos de skincare no TikTok. A mãe, uma profissional de saúde de 34 anos da cidade de São Paulo que pediu para não ser identificada, conta que achou a cena fofa. "Ela assistia àquelas meninas organizando as prateleiras de produtos, falando sobre 'slugging', sobre 'glass skin', sobre 'barrier repair'. Era tão detalhada, tão empolgada", lembra. Três meses depois, a filha havia desenvolvido uma dermatite de contato em ambas as bochechas e se recusava a ir à escola quando o rosto estava "manchado". A pediatra foi a primeira a usar uma palavra que a mãe nunca havia ouvido: cosmeticorexia.

No consultório do dermatologista Marcos Antônio Vieira, na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro, a cena se repetiu de formas diferentes ao longo de todo o último ano. Uma menina de dez anos com descamação severa por uso excessivo de esfoliante químico. Uma pré-adolescente de doze com hiperpigmentação causada pela associação incorreta de ácido glicólico com niacinamida. Uma garota de nove anos que, após descobrir que a pele estava "danificada", entrou em prantos no meio da consulta porque acreditava que havia "envelhecido para sempre". "Quando você vê uma criança de nove anos em pânico porque acha que sua pele está envelhecida, você sabe que algo muito sério está acontecendo", diz o médico.

O fenômeno tem crescido de forma alarmante no Brasil e no mundo. Alimentado por um ecossistema de redes sociais que glorifica rotinas de cuidados com a pele cada vez mais complexas e agressivas, a cosmeticorexia — termo que combina o universo dos cosméticos com o sufixo da palavra grega para apetite ou desejo compulsivo, em alusão aos transtornos alimentares como anorexia e ortorexia — está transformando o banheiro de meninas em idade escolar num campo minado de ativos inadequados, expectativas irreais e sofrimento psíquico crescente.

Este é o retrato de uma crise que se desenvolve silenciosamente nas telas dos celulares, nos corredores das farmácias e nos banheiros das casas brasileiras — e que começa a desafiar médicos, psicólogos, educadores e pais que, muitas vezes, ainda não sabem que o problema existe.

A palavra "cosmeticorexia" ainda não consta nos manuais diagnósticos oficiais, como o DSM-5 (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais) ou o CID-11 (Classificação Internacional de Doenças). Mas ela já circula com frequência crescente em artigos científicos, congressos de dermatologia pediátrica e publicações especializadas em saúde mental infanto-juvenil. O termo descreve uma relação compulsiva, ansiosa e disfuncional com produtos cosméticos e rotinas de cuidados com a pele, marcada por pensamentos intrusivos sobre imperfeições cutâneas, comportamentos de checagem excessiva da própria aparência e uso de substâncias inadequadas para a idade ou tipo de pele.

"Não estamos falando de uma criança que usa hidratante e protetor solar", explica a dermatologista pediátrica Renata Colucci, membro da Sociedade Brasileira de Dermatologia. "Estamos falando de uma criança de oito, nove, dez anos usando retinol em pele ainda em desenvolvimento, aplicando ácidos em rotinas de duas etapas noturnas, misturando três ou quatro serums diferentes porque viu no TikTok, e entrando em colapso emocional quando percebe que a pele não ficou 'vidrada' como a da influenciadora de 22 anos que ela segue."

O fenômeno não é exclusivamente brasileiro. Estudos conduzidos no Reino Unido pela organização de defesa dos consumidores Which? revelaram, em 2023 e 2024, que crianças entre 7 e 12 anos estavam comprando ativamente produtos anti-aging em lojas como Sephora e Boots. Nos Estados Unidos, o fenômeno chegou a ser apelidado de "Sephora Kids" — referência às crianças que aparecem em viralizações comprando caixas de produtos da gigante de cosméticos — e gerou matérias de capa em revistas como Time e The Atlantic. Na Austrália, a dermatologista Sandy Skotnicki, do Hospital Mount Sinai de Toronto, publicou um alerta formal em que descrevia casos de crianças de seis anos com dermatite perioral causada por hidratantes com fragrâncias pesadas.

No Brasil, o alerta veio em múltiplas frentes quase simultaneamente. Em 2024, a Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) publicou uma nota técnica alertando para os riscos do uso indiscriminado de cosméticos por crianças e adolescentes. A Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD) incluiu o tema nas discussões de seu último congresso anual. E a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) iniciou, em caráter preliminar, uma revisão das diretrizes sobre rotulagem de produtos cosméticos que contêm ativos como retinoides, ácidos hidroxílicos e compostos hormonais vegetais.

O que ninguém sabe, com precisão, é quantas crianças estão efetivamente afetadas. Não existe, por ora, um levantamento epidemiológico abrangente sobre o tema no país. O que existe são consultórios médicos reportando aumento expressivo no número de atendimentos de crianças com lesões dérmicas causadas por cosméticos inadequados, e psicólogos registrando um crescimento nos casos de ansiedade relacionada à aparência em faixas etárias cada vez mais baixas.

Uma pesquisa realizada em 2024 pela empresa de monitoramento de tendências comportamentais Kantar Brasil, com uma amostra de 1.200 mães de crianças entre 6 e 14 anos nas cinco regiões do país, revelou que 43% das entrevistadas disseram que suas filhas já haviam pedido algum produto cosmético "adulto" nos últimos 12 meses. Entre as meninas de 10 a 14 anos, o número subiu para 67%. Os produtos mais citados: séruns com vitamina C, ácido hialurônico, retinol e cremes anti-aging de marcas premium.

"Esses números são assustadores porque revelam que o problema já chegou ao mainstream", diz a psicóloga clínica e pesquisadora Ana Paula Moreira, especializada em transtornos de imagem corporal em adolescentes. "Não estamos falando de um fenômeno de nicho. Estamos falando de algo que está dentro de casa, nos celulares, na conversa das crianças na escola."

A MÁQUINA DE INFLUÊNCIA — COMO O ALGORITMO ALIMENTA A OBSESSÃO

Para entender a cosmeticorexia, é preciso entender antes o ecossistema que a alimenta. E esse ecossistema tem um coração pulsante chamado TikTok — com veias que se estendem pelo Instagram, pelo YouTube e pelo Pinterest.

O universo do skincare nas redes sociais é um dos nichos de maior crescimento na última década. A hashtag #skincare no TikTok acumula mais de 200 bilhões de visualizações. O #skincareroutine passa dos 80 bilhões. Em Portugal e no Brasil, os números seguem proporcionalmente explosivos: #skincarebrasil tem dezenas de milhões de visualizações, e perfis de adolescentes mostrando rotinas de "10 passos" chegam a acumular centenas de milhares de seguidores.

O problema começa na natureza do próprio conteúdo. As influenciadoras de skincare — em sua maioria mulheres adultas jovens, frequentemente com acesso a produtos patrocinados ou recebidos gratuitamente — constroem narrativas de autoridade em torno de ingredientes técnicos. Falam de "barreira cutânea comprometida", de "pH cutâneo", de "ciclo celular" e de "danos do sol". O vocabulário científico cria uma ilusão de expertise que seduz especialmente crianças e adolescentes em busca de identidade e pertencimento.

"Existe um fenômeno de 'affordância percebida' aqui", explica o pesquisador em comunicação digital Thiago Nascimento, professor da Universidade Federal Fluminense. "A criança vê aquele conteúdo e interpreta: 'se eu usar esses produtos e souber esse vocabulário, vou fazer parte desse grupo, vou ser essa pessoa sofisticada'. O skincare virou um marcador de identidade, de classe social, de inteligência até. E os algoritmos aprendem rapidíssimo que aquele tipo de conteúdo gera engajamento e entregam mais e mais."

O mecanismo é perverso porque o próprio algoritmo do TikTok e do Instagram é treinado para maximizar o tempo de tela. Quanto mais a criança assiste a vídeos de skincare, mais vídeos de skincare aparecem no feed. Em pouco tempo, o feed está saturado de conteúdo que normaliza rotinas complexas, cria insatisfação com a própria pele e apresenta soluções em forma de produtos compráveis. "É literalmente um funil de marketing disfarçado de conteúdo educativo", diz Nascimento.

Há outro elemento igualmente problemático: a faixa etária das próprias influenciadoras. Ao longo de 2023 e 2024, proliferaram no TikTok perfis de crianças e adolescentes — muitos com menos de 15 anos — mostrando rotinas de skincare elaboradas, com prateleiras cheias de produtos de marcas caras. Esses perfis são, frequentemente, gerenciados por pais que encontram ali uma fonte de renda, o que adiciona uma camada ainda mais complexa ao problema: a própria família como vetor de um comportamento potencialmente danoso.

A pesquisadora britânica Dr. Emma Sutton, da Universidade de Bath, publicou em 2025 um estudo longitudinal analisando o padrão de consumo de conteúdo de skincare por meninas entre 9 e 15 anos. Os resultados foram contundentes: quanto mais horas semanais a menina passava consumindo esse conteúdo, maior era o seu nível de insatisfação com a própria aparência, maior a quantidade de produtos que usava e maior a prevalência de sintomas ansiosos relacionados à aparência. A correlação era significativa mesmo controlando variáveis como classe social e presença de transtornos pré-existentes.

"As redes sociais não criaram a insegurança com a aparência nas meninas — isso é tão antigo quanto a própria sociedade", pondera a psicóloga Ana Paula Moreira. "O que elas fizeram foi turbiná-la, acelerá-la e baixar o gatilho etário para idades que nunca vimos antes. Uma criança de oito anos não deveria estar preocupada com poros dilatados. Mas ela está. E isso não acontece no vácuo."

QUEM SÃO ESSAS CRIANÇAS — O PERFIL DA GERAÇÃO SKINCARE

Ela tem, em média, entre 8 e 14 anos. É majoritariamente menina — embora o fenômeno comece a aparecer, em proporção menor, também entre meninos. Vive em área urbana, geralmente em famílias de classe média ou média alta, com acesso a smartphone desde cedo e com pais com pouco tempo — ou pouca clareza — para monitorar o uso das telas. Segue ao menos três influenciadoras de skincare. Sabe a diferença entre retinol e retinal. E já desenvolveu, ou está desenvolvendo, uma relação ansiosa com a própria pele.

Mas seria um equívoco circunscrever o problema apenas às camadas economicamente privilegiadas. Em pesquisa realizada em 2024 com 450 estudantes de escolas públicas e privadas de Belo Horizonte, a dermatologista Carla Mascarenhas, professora da UFMG, encontrou uma prevalência de uso de pelo menos um cosmético classificado como inadequado para crianças em 38% das meninas de escolas públicas e 61% das meninas de escolas privadas. "A diferença existe, mas ela é muito menor do que imaginávamos", disse Mascarenhas em entrevista para esta reportagem. "Os produtos de marcas acessíveis e de supermercado também contêm ativos problemáticos, e o acesso ao conteúdo das redes sociais é praticamente universal entre crianças com smartphone."

O perfil psicológico dessas crianças merece atenção especial. Estudos internacionais e observações clínicas no Brasil convergem para um padrão: muitas dessas meninas apresentam características compatíveis com alta sensibilidade, tendência ao perfeccionismo e necessidade de controle. Para elas, o skincare assume uma função que vai muito além do cosmético: é um ritual de controle sobre o próprio corpo, uma forma de dominar algo em um período de vida marcado pela incerteza.

"A pré-adolescência é um momento de profunda turbulência interna", explica a psicóloga infantil Fernanda Leal, que atende em São Paulo e que vem notando crescimento nos encaminhamentos relacionados à cosmeticorexia. "O corpo está mudando, a identidade está se formando, o grupo social ganha uma importância enorme. Para uma menina que se sente fora de controle nesse processo, cuidar da pele pode parecer uma ilha de controle. Só que quando esse cuidado se transforma em compulsão — em checar o espelho 20 vezes por dia, em entrar em desespero quando aparece uma espinha, em recusar atividades sociais porque a pele não está 'boa' — aí é quando o alarme precisa soar."

A fronteira entre cuidado saudável e compulsão patológica é tênue, e exatamente por isso o problema demora a ser identificado. Pais relatam que, no início, interpretam a nova fase como maturidade, responsabilidade, vaidade saudável. A filha está cuidando da higiene, está aprendendo sobre saúde. Só quando os comportamentos escalona — mais produtos, mais tempo no banheiro, mais angústia quando algo "dá errado" — é que a família começa a perceber que algo não está bem.

O ARSENAL PROIBIDO — OS ATIVOS QUE ESTÃO FAZENDO MAL

Para entender por que dermatologistas estão alarmados, é preciso conhecer o que essas crianças estão usando — e o que esses ingredientes fazem em uma pele que ainda não terminou de se desenvolver.

A lista dos ativos mais recorrentes no universo do skincare infantil inclui alguns dos ingredientes mais agressivos disponíveis no mercado cosmético:

Retinol e seus derivados (retinal, retinoides): Os retinoides são derivados da vitamina A e estão entre os ingredientes com maior evidência científica para tratamento de envelhecimento e acne em adultos. Funcionam aumentando a renovação celular e estimulando a produção de colágeno. Em peles adultas, quando utilizados com orientação médica e em concentrações adequadas, podem ser extremamente benéficos. Em peles infantis, são inadequados por múltiplas razões: a pele da criança já tem uma taxa de renovação celular naturalmente mais alta que a do adulto; a barreira cutânea infantil é mais permeável, permitindo absorção maior e mais intensa dos ativos; e a sensibilidade à irritação é significativamente maior. O uso de retinol em crianças pode causar eritema (vermelhidão), descamação, fotossensibilização e, em casos mais graves, reações inflamatórias que deixam hiperpigmentação pós-inflamatória.

Ácidos hidroxílicos (AHA e BHA): O ácido glicólico, o ácido lático, o ácido mandélico e o ácido salicílico são exfoliantes químicos amplamente utilizados em tratamentos dermatológicos adultos. Quando aplicados sem orientação na pele de crianças e pré-adolescentes, podem alterar o pH natural da superfície cutânea, destruir a barreira protetora de lipídeos e microbioma e causar queimaduras químicas de baixo grau que se manifestam como vermelhidão, sensibilidade aumentada e manchas. O ácido salicílico, em particular, representa um risco adicional: é contraindicado em menores de 12 anos por risco de salicilismo — intoxicação sistêmica pela absorção percutânea excessiva.

Fitoestrógenos e ingredientes de ação hormonal: Esta é, talvez, a categoria que mais preocupa os endocrinologistas. Ingredientes como extrato de soja, extrato de trevo vermelho, genistena, daidzeína e resveratrol possuem ação semelhante ao estrogênio no organismo. Em adultos, essa ação é estudada e, em geral, segura. Em crianças, especialmente aquelas em período pré-puberal, a exposição a compostos com ação estrogênica é motivo de atenção por conta do potencial de interferência no desenvolvimento hormonal normal. "Ainda não temos estudos longitudinais definitivos sobre o impacto desses ingredientes na puberdade de meninas", reconhece o endocrinologista pediátrico Roberto Campos, do Hospital das Clínicas de São Paulo. "Mas temos razão suficiente para precaução. A regra básica da toxicologia é que a dose faz o veneno, e crianças são muito mais vulneráveis do que adultos porque o corpo ainda está em processo de programação hormonal."

Niacinamida em altas concentrações: A niacinamida (vitamina B3) é geralmente considerada um ingrediente seguro e bem tolerado. No entanto, produtos com concentrações acima de 10% — cada vez mais comuns no mercado — podem causar rubor cutâneo (flushing), irritação e, quando combinados incorretamente com outros ativos, reações adversas imprevisíveis. Crianças tendem a usar concentrações maiores porque copiam as referências que veem online, sem entender as nuances de formulação.

Vitamina C (ácido ascórbico): O ácido ascórbico puro, em formulações séricas de pH ácido, é quimicamente instável e altamente irritante para peles sensíveis. Embora seja um antioxidante benéfico, sua forma mais ativa é inadequada para peles infantis. Muitas crianças usam sérum de vitamina C diariamente, sem proteção solar adequada — o que é especialmente problemático porque o ácido ascórbico aumenta a fotossensibilidade da pele.

Peptídeos tensores e anti-aging: Cremes e serums com peptídeos voltados para "lifting" e "firmeza" são, na melhor das hipóteses, inúteis em uma pele de dez anos — que já tem toda a firmeza e elasticidade que qualquer adulto desejaria. Na pior das hipóteses, contêm outros ativos que podem causar irritação.

Protetor solar químico em excesso: O protetor solar é o cosmético mais importante para qualquer idade. Mas há diferença entre protetor solar adequado para crianças — em geral, filtros físicos com óxido de zinco e dióxido de titânio — e protetores adultos com filtros químicos como oxibenzona e avobenzona, que podem causar reações de sensibilização e têm potencial de absorção sistêmica, especialmente em crianças.

O maior perigo, porém, não está em nenhum produto isoladamente: está na combinação de múltiplos ativos, aplicados em sequência, sem orientação, em peles que ainda estão se desenvolvendo. "O que a gente vê no consultório é criança com quatro, cinco, seis produtos diferentes na rotina noturna", relata a dermatologista Renata Colucci. "Isso é formulação de alto risco mesmo para adultos. Para uma pele de oito anos, é uma bomba."

A PELE INFANTIL — TERRITÓRIO FRÁGIL E MAL COMPREENDIDO

Para entender a magnitude do risco, é fundamental compreender o que diferencia a pele de uma criança da pele de um adulto — e por que essa diferença torna o uso de ativos potentes especialmente perigoso.

A pele humana é o maior órgão do corpo e cumpre funções vitais: barreira contra agentes externos, regulação da temperatura, síntese de vitamina D, proteção imunológica. Ao nascimento, essa barreira já existe, mas ainda está incompleta e continua se desenvolvendo ao longo de toda a infância e adolescência.

A derme de uma criança tem uma proporção maior de água e uma concentração menor de lipídeos intercelulares (as "gorduras" que formam a barreira protetora) do que a derme adulta. Isso a torna mais permeável — ou seja, qualquer substância aplicada na superfície tem maior probabilidade de ser absorvida sistemicamente. "A relação entre superfície corporal e massa corporal em crianças é muito maior do que em adultos", explica a dermatologista Colucci. "Isso significa que uma criança absorve proporcionalmente mais de qualquer ingrediente aplicado na pele do que um adulto que usa o mesmo produto. Os riscos de toxicidade sistêmica são reais."

Além disso, a pele infantil tem um pH naturalmente mais ácido do que o de adultos, o que cria um microbioma (comunidade de micro-organismos protetores) específico e calibrado para essa faixa etária. A aplicação de produtos com pH alterado — como ácidos exfoliantes — pode destruir esse microbioma e deixar a pele mais vulnerável a infecções e irritações.

Há ainda o fator neurológico: as terminações nervosas que detectam irritação e dor na pele ainda estão se desenvolvendo durante a infância. Isso pode criar uma situação paradoxal em que a criança sente a irritação, mas não a interpreta como sinal de dano, continuando a usar o produto que está causando o problema.

A adolescência adiciona outra camada de complexidade. Com o início da puberdade, os hormônios androgênicos — testosterona e DHEA — estimulam as glândulas sebáceas, levando ao aumento da oleosidade e, frequentemente, ao aparecimento da acne. A pele adolescente é genuinamente diferente da pele infantil e da pele adulta, e tem necessidades específicas de cuidado. O problema é que muitas adolescentes, em vez de buscar orientação médica para essa transição, recorrem às redes sociais — e acabam aplicando rotinas elaboradas que podem agravar, e não melhorar, o quadro.

"A acne é uma condição médica. Não é questão de 'rotina de skincare'", afirma o dermatologista Marcos Vieira. "Mas o que acontece? A adolescente tem acne, vê no TikTok que ácido salicílico resolve, começa a usar dois, três produtos com ácido, resseca completamente a pele, quebra a barreira, a acne piora, ela usa mais produto, e entra num ciclo vicioso. Quando chega no consultório, às vezes o quadro que eu preciso tratar é mais a dermatite por produto do que a acne original."

O PESO NA MENTE — PSICOLOGIA, ANSIEDADE E TRANSTORNOS DE IMAGEM

Se os danos físicos já são preocupantes, os danos psicológicos são, potencialmente, ainda mais graves e duradouros. A cosmeticorexia não é apenas uma questão de produtos inadequados na pele: é, fundamentalmente, uma manifestação de sofrimento psíquico.

Na classificação dos transtornos mentais, o conjunto de comportamentos associados à cosmeticorexia dialoga diretamente com o Transtorno Dismórfico Corporal (TDC) — uma condição caracterizada pela preocupação excessiva e perturbadora com defeitos físicos percebidos, que podem ser mínimos ou completamente imaginários. O TDC em adultos tem alta prevalência de rituais compulsivos de verificação no espelho, comportamentos de camuflagem (uso excessivo de maquiagem, por exemplo) e evitação social quando a pessoa se percebe "feia".

Em crianças e adolescentes, o TDC com foco na pele pode se manifestar exatamente como o que estamos descrevendo: checagem excessiva do espelho (em casos graves, dezenas de vezes ao dia), uso compulsivo de produtos para "corrigir" defeitos que outros mal percebem, angústia intensa quando a pele "não está boa" e evitação de situações sociais — escola, festas, fotos — por causa de percepções distorcidas sobre a própria aparência.

"Não estou dizendo que toda criança que usa skincare tem TDC — longe disso", pontua a psicóloga Ana Paula Moreira. "Mas há um espectro. E o que me preocupa é que estamos criando, em escala de massa, condições ideais para que esse espectro se desenvolva em crianças cada vez mais novas."

A janela de desenvolvimento entre os 8 e os 14 anos é particularmente sensível porque é o período em que a identidade está sendo construída. As avaliações externas têm um peso desproporcional nessa fase — o que o grupo pensa importa mais do que em qualquer outro momento da vida. Quando o grupo está, coletivamente, obcecado com skincare, e quando as redes sociais reforçam constantemente a mensagem de que a pele "natural" é insuficiente, o impacto no desenvolvimento da autoimagem pode ser profundo.

Estudos publicados no Journal of Adolescent Health demonstram que a frequência de exposição a conteúdo de beleza idealizado nas redes sociais está positivamente correlacionada com insatisfação corporal, comportamentos de comparação social e sintomas depressivos em adolescentes — especialmente meninas. Quanto mais cedo essa exposição começa, maior a probabilidade de impacto duradouro.

Há também o aspecto econômico-social, raramente discutido. Os produtos de skincare mais glamorizados nas redes sociais — marcas como The Ordinary, Paula's Choice, CeraVe na versão "premium", Drunk Elephant, La Mer — têm preços que variam de dezenas a centenas de reais. Crianças que não têm acesso a esses produtos relatam sentir vergonha entre os pares. "Já ouvi de mães que as filhas foram intimidadas na escola porque usavam o hidratante 'errado'", diz Fernanda Leal, a psicóloga infantil. "O skincare virou marcador de status social entre pré-adolescentes, com todo o potencial de exclusão que isso representa."

A psicologia das redes sociais adiciona mais uma camada. O fenômeno do "like" e do engajamento cria um sistema de recompensa externa para comportamentos relacionados à aparência. Uma criança que posta o vídeo da sua "rotina de skincare" e recebe centenas de curtidas aprende, em nível profundo, que sua aparência — e o esforço para controlá-la — é valorizada e recompensada. Isso pode criar dependência de validação externa que vai muito além do universo do skincare.

INDÚSTRIA COSMÉTICA — CUMPLICIDADE, OPORTUNISMO E (EVENTUAL) CONSCIÊNCIA

Seria injusto — e incorreto — culpar exclusivamente as influenciadoras digitais ou as próprias crianças pelo fenômeno da cosmeticorexia. A indústria cosmética global, avaliada em mais de 600 bilhões de dólares anuais, tem um papel central e, em muitos aspectos, problemático nessa história.

A expansão do mercado de skincare para públicos cada vez mais jovens não aconteceu por acidente. Aconteceu porque é altamente lucrativa. O consumidor jovem, quando fidelizado a uma marca, pode representar décadas de receita. E as estratégias de marketing, especialmente no ambiente digital, foram deliberadamente desenhadas para alcançar esse público.

O marketing de influência é o vetor principal. Marcas patrocinam influenciadoras — inclusive adolescentes e crianças — para apresentar produtos em conteúdos que parecem orgânicos e espontâneos, mas são, na prática, publicidade. No Brasil, o Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária (Conar) exige a identificação explícita de conteúdo patrocinado, mas a fiscalização é deficiente e as penalidades, insuficientes para desestimular a prática.

Há uma dimensão ainda mais grave: algumas marcas desenvolveram linhas explicitamente voltadas para o público infanto-juvenil, incluindo produtos com ativos que dermatologistas consideram inapropriados para essa faixa etária. A estratégia é apresentar esses produtos com embalagens coloridas, nomes lúdicos e influenciadoras jovens, sem qualquer indicação de que os ativos podem ser prejudiciais para peles em desenvolvimento.

Em 2024, a gigante francesa L'Oréal se viu no centro de uma controvérsia no Reino Unido após relatórios mostrarem que produtos da linha CeraVe — que a empresa adquiriu — estavam sendo amplamente utilizados por crianças pequenas, frequentemente com resultados adversos. A resposta da empresa foi tímida: uma nota afirmando que os produtos "não são formulados para crianças". Nenhum recall, nenhuma mudança de embalagem, nenhuma campanha de conscientização.

No Brasil, a situação regulatória é particularmente frágil. A Anvisa classifica cosméticos em dois grupos — produtos de baixo risco (grau 1) e produtos de risco moderado (grau 2) — mas não existe uma categoria específica para cosméticos inadequados para menores de idade. Produtos com retinol, ácidos exfoliantes e fitoestrógenos podem ser vendidos sem qualquer restrição de idade em farmácias, supermercados e plataformas de e-commerce. Não existe obrigatoriedade de alertas específicos para uso em crianças.

"A regulação cosmética no Brasil ainda está décadas atrás do necessário", avalia o farmacêutico e toxicologista Carlos Eduardo Britto, professor da Universidade Estadual de Campinas. "Temos regras para alimentos, para medicamentos. Para cosméticos, especialmente os de venda livre, a liberdade é enorme. E isso é um problema sério quando estamos falando de ingredientes bioativos com potencial de ação sistêmica."

Alguns setores da indústria, é verdade, começam a dar sinais de consciência — ou ao menos de resposta à pressão pública. A Sephora, após a repercussão negativa do fenômeno "Sephora Kids" nos Estados Unidos, implementou em algumas lojas políticas que limitam o acesso de crianças desacompanhadas à seção de skincare com ativos. A marca de beleza australiana Bondi Sands lançou, em 2024, uma linha exclusivamente desenvolvida para adolescentes, com formulações validadas por dermatologistas pediátricos. E a Unilever publicou um compromisso de não patrocinar influenciadoras menores de 16 anos para produtos classificados como adultos.

São passos insuficientes, mas que indicam que a pressão está chegando. "A indústria só vai mudar quando o custo de não mudar for maior do que o custo de mudar", analisa Thiago Nascimento, o pesquisador em comunicação digital. "Ainda estamos no começo desse processo."

O SILÊNCIO DOS PAIS — ENTRE O DESCONHECIMENTO E A CUMPLICIDADE INVOLUNTÁRIA

Se existe um elo na cadeia da cosmeticorexia que poderia — e deveria — funcionar como freio, mas frequentemente não funciona, esse elo são os pais. E entender por que isso acontece é fundamental para construir qualquer estratégia de resposta ao problema.

A maioria dos pais que contribui, involuntariamente, para a cosmeticorexia dos filhos não está sendo negligente por desleixo. Está sendo negligente por desinformação. Simplesmente não sabe que retinol é um ativo potencialmente prejudicial para crianças. Não sabe que ácido glicólico pode alterar o pH da pele de uma pré-adolescente. Não sabe que o vídeo "educativo" que a filha está assistindo é, na prática, conteúdo publicitário disfarçado.

Há também o papel dos presentes. Cosméticos viraram um presente popular entre familiares de crianças e adolescentes — prático, desejado, moderno. Avós, tias, padrinhos compram serums de vitamina C para aniversários de nove anos sem saber o que estão comprando. Os produtos são embrulhados com alegria, recebidos com entusiasmo, e ninguém pensa duas vezes.

Outro fator complicador é a dinâmica de controle das telas. O TikTok é usado por crianças de todas as idades, frequentemente sem supervisão parental. Mesmo pais que monitoram o conteúdo que os filhos assistem muitas vezes não identificam vídeos de skincare como potencialmente problemáticos — parece conteúdo inofensivo, até saudável. "Vejo muitos pais que me trazem crianças com problemas de pele por cosméticos inadequados que ficaram aliviados de que o filho não estava assistindo conteúdo violento ou sexual", diz a dermatologista Renata Colucci. "Eles simplesmente não viram risco no skincare."

Existe ainda um subgrupo de pais que, conscientemente ou não, incentiva o comportamento. São os que acham bonito que a filha de dez anos "cuide da pele", que postam fotos da criança com a prateleira de produtos lotada de serums, que compram os produtos que a filha pede sem questionar. Às vezes, esses pais têm, eles próprios, uma relação problemática com a aparência e, inconscientemente, transmitem essa dinâmica.

"A cosmeticorexia raramente existe no vácuo", observa Fernanda Leal. "Quando eu vejo uma criança de dez anos com esse padrão compulsivo em relação à pele, na grande maioria dos casos, existe uma dinâmica familiar que precisa ser examinada. Às vezes é uma mãe que tem transtorno dismórfico não diagnosticado. Às vezes são comentários cotidianos sobre aparência que a criança internalizou. Às vezes é simplesmente ausência de limite e supervisão. O trabalho terapêutico precisa incluir a família."

A escola também está, em grande medida, ausente desse debate. Professores relatam que o tema do skincare entre alunas é comum e, frequentemente, vem acompanhado de dinâmicas de exclusão e hierarquia social — as que têm os produtos "certos" e as que não têm. Poucas escolas, porém, têm programas estruturados de educação sobre uso crítico das redes sociais ou sobre os riscos do uso inadequado de cosméticos.

O BRASIL NO CONTEXTO GLOBAL — PECULIARIDADES DE UM PAÍS OBCECADO COM BELEZA

O Brasil ocupa uma posição peculiar nessa discussão. Somos o quarto maior mercado consumidor de produtos de beleza e higiene pessoal do mundo, atrás apenas dos Estados Unidos, China e Japão. A indústria de cosméticos movimenta mais de 50 bilhões de reais por ano no país. A cultura da beleza — e da preocupação com a aparência — está profundamente enraizada no tecido social brasileiro, de formas que não têm paralelo em muitas outras culturas.

Isso tem implicações diretas para a cosmeticorexia. O Brasil cria um solo particularmente fértil para que esse fenômeno floresça porque a obsessão com beleza é normalizada, frequentemente celebrada, raramente questionada. A pressão estética sobre mulheres — e, consequentemente, sobre meninas — é enorme e começa muito cedo.

"Existe uma narrativa cultural no Brasil que diz que se preocupar com a aparência é obrigação das mulheres", analisa a socióloga Beatriz Prado, pesquisadora do Núcleo de Estudos de Gênero da Unicamp. "Que cuidar do corpo é sinal de responsabilidade, de autoestima, de saúde. Essa narrativa é problemática porque não distingue entre cuidado saudável e compulsão, e porque impõe essa responsabilidade desde muito cedo, especialmente sobre as meninas."

O racismo estrutural adiciona outra dimensão ao problema. Meninas negras enfrentam uma pressão estética adicional, derivada de padrões de beleza historicamente eurocentrizados que relegam características afro-brasileiras — tipo de cabelo, tom de pele, textura — a categorias de "problema a ser corrigido". Produtos como clareadores de pele e "relaxantes de poros" — que contêm ativos altamente problemáticos para qualquer pele, mas especialmente para peles melanizadas — têm sido identificados com preocupante frequência no arsenal cosmético de meninas negras que estão tentando se adequar a padrões que nunca foram feitos para elas.

"A cosmeticorexia em meninas negras tem uma camada de violência simbólica que precisa ser nomeada", diz a psicóloga Camila Santos, especializada em interseccionalidade e saúde mental. "Quando uma criança de dez anos está usando clareador de pele porque viu no TikTok que vai deixar a pele 'mais bonita', estamos falando de autoódio cultivado, não de cuidado."

REGULAMENTAÇÃO — O VÁCUO LEGAL QUE PRECISA SER PREENCHIDO

Enquanto médicos e psicólogos trabalham nos consultórios para reparar os danos, há uma urgência paralela no campo da política pública e da regulamentação que ainda está longe de ser resolvida.

No Brasil, a Anvisa — responsável pela regulamentação de cosméticos — opera com um marco regulatório que data em seus fundamentos dos anos 2000, quando o universo de ativos cosméticos era muito mais simples e o acesso da população geral a produtos com ingredientes bioativos era muito mais restrito. Desde então, a indústria evoluiu dramaticamente, mas a regulação não acompanhou o ritmo.

Atualmente, não existe no Brasil nenhuma norma que obrigue fabricantes de cosméticos com retinol, ácidos exfoliantes ou fitoestrógenos a incluir avisos de contraindicação para menores de idade. Não existe limite de idade para compra de produtos cosméticos. Não existe exigência de que e-commerces verifiquem a idade dos compradores para esse tipo de produto.

A Anvisa iniciou, em 2024, uma consulta pública sobre possível atualização das normas de rotulagem de cosméticos, incluindo menção a alertas para populações específicas. O processo, no entanto, é lento e enfrenta resistência da indústria. "A Anvisa trabalha com um corpo técnico competente, mas com recursos limitados e pressão enorme da indústria", avalia o farmacêutico Carlos Eduardo Britto. "E a indústria de cosméticos tem lobbies muito ativos no Brasil. Não é fácil avançar."

Especialistas ouvidos por esta reportagem defendem um conjunto de medidas regulatórias prioritárias:

A primeira é a obrigatoriedade de alertas específicos em produtos com ativos como retinol, ácidos hidroxílicos em concentrações acima de determinado threshold, e compostos com ação hormonal documentada, indicando que não são adequados para menores de determinada idade. A segunda é a regulamentação do marketing de cosméticos direcionado a crianças e adolescentes, especialmente no ambiente digital, com exigências mais rigorosas de transparência sobre patrocínios. A terceira é a criação de uma categoria regulatória específica para cosméticos infanto-juvenis, com exigências de formulação e testes de segurança específicos para essa faixa etária. E a quarta é a exigência de que plataformas digitais como TikTok e Instagram implementem sistemas de aviso quando conteúdo de skincare é consumido por usuários menores de 16 anos.

No Congresso Nacional, há sinais tímidos de movimento. Projetos de lei que tratam da proteção de crianças no ambiente digital — como o PL das Fake News e o Marco Legal das IAs — chegam tangencialmente ao tema, mas nenhum o aborda de forma direta. Uma deputada federal do Rio Grande do Sul apresentou, em 2025, uma proposta que obrigaria a indicação etária em embalagens de cosméticos com determinados ativos, mas o projeto ainda aguarda tramitação.

COMO IDENTIFICAR OS SINAIS DE ALERTA

Para pais, educadores e profissionais de saúde que trabalham com crianças e adolescentes, identificar precocemente os sinais da cosmeticorexia é fundamental para uma intervenção eficaz. Os especialistas consultados por esta reportagem apontam um conjunto de comportamentos que merecem atenção:

Do ponto de vista comportamental, deve-se observar o uso de mais de três ou quatro produtos cosméticos diferentes por dia, rotinas de skincare que ocupam mais de 20 a 30 minutos diariamente, verificação frequente e ansiosa do próprio rosto no espelho ou em câmeras de celular, comportamento de evitação social relacionado à aparência da pele, compras compulsivas ou pedidos insistentes de novos produtos cosméticos, angústia ou choro quando algum produto acaba ou quando a pele não está "perfeita", e dificuldade de dormir ou concentrar-se por preocupação com a aparência da pele.

Do ponto de vista físico, os sinais incluem vermelhidão, descamação ou irritação persistente da pele sem causa identificada, manchas escuras em áreas que recebem produtos (principalmente bochechas, testa e nariz), ressecamento excessivo da pele, e aparecimento de reações alérgicas ou dermatites sem histórico familiar.

É importante notar que a presença de um ou dois desses sinais isoladamente não necessariamente indica cosmeticorexia. Crianças podem usar produtos inadequados por simples curiosidade, sem que isso represente um padrão compulsivo. O que deve chamar atenção é a persistência dos comportamentos, a angústia associada a eles e o impacto no funcionamento social e emocional da criança.

O QUE FAZER — ORIENTAÇÕES PARA PAIS E CUIDADORES

A cosmeticorexia é tratável, especialmente quando identificada precocemente. Os especialistas recomendam uma abordagem integrada que envolve cuidados médicos, suporte psicológico e mudanças no ambiente familiar.

O primeiro passo é sempre uma avaliação médica. O pediatra ou dermatologista pediátrico pode avaliar o estado da pele, identificar possíveis danos causados por produtos inadequados, orientar sobre cuidados básicos adequados para a idade e, se necessário, encaminhar para outros especialistas.

Em paralelo, é fundamental uma avaliação psicológica, especialmente se houver sinais de sofrimento emocional significativo associado à aparência. Um psicólogo especializado em infância e adolescência pode trabalhar a autoimagem, as crenças sobre aparência e os padrões compulsivos de comportamento.

No nível familiar, os especialistas recomendam conversas honestas e sem julgamento com a criança sobre o que vê nas redes sociais, com foco em desenvolver o senso crítico sobre os conteúdos consumidos. Também é importante rever o que está disponível em casa — muitas vezes, pais se surpreendem ao descobrir o que há no banheiro — e estabelecer acordos claros sobre o uso de cosméticos.

A retirada abrupta de todos os produtos pode ser traumática para crianças que já desenvolveram um vínculo emocional intenso com a rotina de skincare. Uma abordagem gradual, com substituição de produtos inadequados por alternativas seguras para a idade, tende a funcionar melhor. "Eu nunca digo para os pais 'joga tudo fora'", conta a dermatologista Renata Colucci. "Eu digo: vamos construir uma rotina que faz sentido para essa pele, e vamos retirar o que está fazendo mal de forma gradual, com a criança entendendo o porquê."

O que dermatologistas recomendam para a pele de crianças e adolescentes é, na verdade, muito simples: limpeza suave com sabonete facial adequado para a faixa etária, hidratante leve com ingredientes seguros (sem retinol, sem ácidos, sem perfume), e protetor solar diário com FPS adequado, preferencialmente com filtros físicos. Isso é suficiente — e mais do que suficiente — para manter a saúde cutânea de qualquer criança.

Por fim, e talvez o mais importante: restrição consciente do tempo de tela e supervisão do conteúdo consumido. O TikTok e o Instagram têm ferramentas de controle parental que permitem limitar o tempo de uso e filtrar conteúdos. Usá-las não é superproteção: é cuidado.

PERSPECTIVAS — O QUE O FUTURO PODE TRAZER

Existe uma dimensão esperançosa nessa história, e ela está justamente na consciência crescente sobre o problema. A velocidade com que a cosmeticorexia foi identificada, nomeada e discutida — em comparação com fenômenos anteriores de impacto de mídias sobre a autoimagem de crianças, como as revistas de moda dos anos 1990 e 2000 — é surpreendente e positiva.

A geração de pais de hoje é a primeira geração que cresceu com a internet e, portanto, tem maior capacidade de compreender e identificar riscos digitais do que os avós tiveram ao lidar com a televisão. Organizações de defesa da infância estão mais ativas e mais articuladas do que em décadas anteriores. E a própria academia — dermatologia, psicologia, pediatria — está respondendo com velocidade razoável, publicando orientações e construindo evidências.

Nas escolas, começam a surgir iniciativas promissoras de letramento midiático que incluem discussões sobre padrões de beleza, sobre o funcionamento do marketing digital e sobre o impacto das redes sociais na autoimagem. Essas iniciativas ainda são pontuais e dependentes de educadores engajados, mas apontam para um caminho possível.

A própria indústria cosmética, pressionada por consumidores, reguladores e cobertura negativa na mídia, começa a dar sinais de que precisará se reposicionar. Marcas que apostarem em transparência, em formulações seguras para todas as idades e em marketing responsável terão uma vantagem competitiva crescente à medida que o tema ganhe mais visibilidade pública.

"Acredito que daqui a dez anos vamos olhar para esse momento como um ponto de inflexão", diz a pesquisadora Emma Sutton. "Do mesmo jeito que hoje temos consenso de que fumar na frente de crianças é um absurdo, acho que vamos chegar a um consenso de que vender retinol para crianças de oito anos sem qualquer restrição é igualmente absurdo. Mas precisamos chegar lá mais rápido."

No banheiro daquela menina de oito anos de São Paulo — a que ganhou o sérum de vitamina C no aniversário e desenvolveu dermatite — as coisas mudaram. A mãe, depois do susto e da consulta com a dermatologista e com a psicóloga, removeu os produtos inadequados e conversou longamente com a filha. "Ela chorou bastante no começo", conta a mãe. "Mas a gente foi conversando, foi explicando, foi mostrando que aquilo que ela via no TikTok não era real, que aquelas 'especialistas' de 22 anos não eram médicas, que a pele dela era linda e não precisava de nada disso."

Hoje, a menina usa um hidratante com FPS indicado pela dermatologista, lava o rosto com sabonete neutro de manhã e à noite, e ainda assiste a alguns vídeos de skincare — mas com mais distância crítica. "Ela mesma já aponta agora: 'mãe, isso aqui é publi', 'isso aqui é mentira, olha o filtro'. Ela aprendeu a olhar diferente."

É um começo. Pequeno, mas real.

CONSIDERAÇÕES FINAIS: A PELE QUE PRECISAMOS PROTEGER

A cosmeticorexia é, em última análise, um sintoma. Sintoma de uma cultura que aprendeu a transformar insegurança em produto, que encontrou no corpo infantil um mercado novo e inexplorado, que confundiu cuidado com consumo e que, ao fazê-lo, colocou em risco não apenas a saúde da pele de nossas crianças, mas a saúde de quem elas estão se tornando.

A pele de uma criança de oito anos não precisa de retinol. Não precisa de ácidos. Não precisa de rotinas de dez passos. Precisa de sol com proteção. Precisa de sabonete gentil. Precisa de hidratação básica. E precisa, acima de tudo, de não ser um problema a ser resolvido.

A obsessão com a pele perfeita que estamos transmitindo para as crianças não é cuidado. É o início de uma longa e dolorosa relação de insatisfação consigo mesmas. E nós — pais, médicos, educadores, reguladores, indústria e sociedade — precisamos decidir, agora, se vamos deixar esse processo continuar ou se vamos fazer algo diferente.

A resposta começa na conversa entre um pai e uma filha, na consulta com um pediatra atento, na aula de uma professora corajosa, na nota técnica de um órgão regulador comprometido, e na decisão de uma marca de que existem limites que o lucro não pode cruzar.

Começa, sobretudo, na crença de que nossas crianças são suficientes exatamente como são — e que a melhor coisa que podemos fazer por elas é ensinar isso, antes que o algoritmo ensine o contrário.

BOX 1 | O QUE DERMATOLOGISTAS RECOMENDAM PARA A PELE DE CRIANÇAS

A rotina ideal de skincare para crianças e adolescentes, segundo especialistas da Sociedade Brasileira de Dermatologia, é propositalmente simples:

Para crianças (até 12 anos): Limpeza com sabonete facial neutro ou infantil, sem fragrância, uma ou duas vezes ao dia. Hidratante leve com ingredientes como glicerina, alantoína ou pantenol. Protetor solar com FPS 30 ou maior, de preferência com filtros físicos (óxido de zinco ou dióxido de titânio), reaplicado a cada duas horas de exposição.

Para adolescentes (12 a 18 anos): Os mesmos itens acima. Para adolescentes com acne, o tratamento deve ser orientado por um dermatologista, que poderá indicar produtos com ácido salicílico em baixa concentração ou outros ativos específicos, conforme o quadro clínico.

O que nunca usar em peles infantis: Retinol e retinoides, ácidos em concentrações acima de 5%, produtos anti-aging, compostos com ação hormonal documentada (fitoestrógenos), e qualquer produto com múltiplos ativos combinados sem orientação médica.

BOX 2 | COMO CONVERSAR COM SEU FILHO SOBRE SKINCARE

Especialistas em psicologia infantil recomendam abordagens que desenvolvam o senso crítico sem criar conflito:

Evite proibições absolutas sem explicação — diga o motivo ("esse produto pode machucar sua pele porque contém ingredientes que não são para crianças"). Questione junto com a criança os conteúdos que ela consome ("você acha que aquela influenciadora sabe de onde tirou essa informação?", "você reparou que ela está sendo paga para falar bem desse produto?"). Proponha uma visita ao dermatologista como algo positivo, para construir juntos uma rotina adequada. Evite comentários negativos sobre a pele da criança, mesmo bem-intencionados — frases como "você está cheio de espinhas" podem amplificar a insegurança. E celebre a pele da criança como ela é, sem condicioná-la a "melhorias".

BOX 3 | RECURSOS E ONDE BUSCAR AJUDA

Para orientação médica: dermatologista pediátrico ou pediatra da confiança da família são os primeiros pontos de contato.

Para suporte psicológico: psicólogos especializados em infância e adolescência, especialmente aqueles com formação em transtornos de imagem corporal.

Para questões regulatórias: denúncias de publicidade enganosa de cosméticos podem ser feitas ao Conar (www.conar.org.br) e à Anvisa (www.gov.br/anvisa).

Para educação midiática: o projeto Educamídia (educamidia.org.br), iniciativa do Instituto Palavra Aberta, oferece materiais gratuitos para pais e educadores sobre letramento midiático e uso crítico de redes sociais.

Escrito por: Equipe Editorial Saldo e Vida Conteúdo focado em transparência financeira e bem-estar integral.

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