Entre juros altos e geopolítica: os mercados do Brasil e dos EUA navegam águas turbulentas em maio
FINANÇAS
5/8/20265 min ler


Ibovespa acumula alta de 16% no ano, dólar recua ao menor nível em dois anos e Fed mantém juros enquanto a guerra no Oriente Médio pressiona a inflação global.
Brasil: real se valoriza, bolsa dispara
O mês de maio começa com uma narrativa de resiliência para o mercado brasileiro. O Ibovespa acumula valorização de 16,49% em 2026, operando acima dos 187 mil pontos na quarta-feira (6). No mesmo período, o dólar derreteu, fechando a R$ 4,91 na terça (5) — o menor patamar desde janeiro de 2024 — e acumulando queda de 10,51% frente ao real no ano.
A combinação de fatores que explica esse movimento é dupla: de um lado, o petróleo acima de US$ 100 o barril melhora os termos de troca do Brasil, aumentando a oferta de dólares no mercado local; de outro, a Selic elevada — ainda em 14,50% ao ano após o corte mais recente pelo Copom — torna o país atraente para operações de carry trade, onde investidores tomam recursos em moedas de juros baixos e aplicam no Brasil.
Carry trade em ação: Com o diferencial de juros entre Brasil e as principais economias, o fluxo estrangeiro para a bolsa brasileira permanece robusto. JP Morgan estima que cerca de US$ 25 bilhões poderiam entrar na B3 vindos do exterior, impulsionados também pela diversificação frente às incertezas políticas nos EUA.
A temporada de resultados corporativos do primeiro trimestre de 2026 também anima os investidores. A Ambev (ABEV3) divulgou lucro líquido de R$ 3,89 bilhões no 1T26, avanço de 2,1% ante o mesmo período de 2025, impulsionando o papel a puxar o Ibovespa para o terreno positivo na terça-feira. O IRB Brasil (IRBR3) também avançou 3,7% após seu balanço trimestral, com destaque para a melhora na sinistralidade.
Entre as blue chips, o desempenho foi misto: Petrobras PN subiu 0,45% enquanto Vale ON cedeu 3,07%, pressionada pela queda no preço do minério de ferro no mercado internacional. Os grandes bancos, por sua vez, figuraram entre as maiores quedas na sessão de 4 de maio, com Bradesco PN recuando 1,86% e Itaú Unibanco PN perdendo 1,61%, refletindo cautela com o cenário de crédito diante de juros ainda elevados.
Selic: cautela no Copom e incerteza à frente
O Banco Central reduziu a Selic para 14,50% ao ano na reunião de abril, mas a ata divulgada na terça (5) trouxe um tom mais conservador do que o esperado. A autoridade monetária sinalizou que precisará de novas informações para definir o ritmo e a extensão do ciclo de "calibração" da taxa — deixando em aberto o horizonte de cortes futuros.
O mercado, por sua vez, projeta que a Selic termine 2026 em 13,00% ao ano, de acordo com o último Boletim Focus (4 de maio). O dólar esperado para o fim do ano também recuou, para R$ 5,25. A inflação, porém, segue pressionando: o IPCA projetado para 2026 subiu pela oitava semana consecutiva, para 4,89%, bem acima da meta de 3%.
Alerta inflacionário: A persistência da inflação — especialmente de serviços e energia, agravada pelo conflito no Oriente Médio — pode limitar o espaço do Copom para cortar juros de forma mais acelerada ao longo do segundo semestre.
Para os economistas do Bradesco, a ata foi "bastante serena", com poucas mudanças que sugerem confiança do BC de que a política monetária está fazendo efeito. Já o banco estima que a Selic termine o ano em 12,75%, apostando em uma dissipação gradual dos choques externos no segundo semestre. A XP, por outro lado, alerta que a queda mais lenta da Selic pode adiar a reprecificação dos fundos imobiliários, embora os ativos do setor sigam com fundamentos positivos no médio prazo.
EUA: Fed em compasso de espera
Do outro lado do Atlântico, o Federal Reserve manteve os juros no intervalo de 3,50% a 3,75% ao ano na reunião de 29 de abril, confirmando as expectativas do mercado. A decisão, porém, revelou um comitê dividido e atento a novos riscos inflacionários, sobretudo após os choques nos preços de energia causados pelo conflito no Oriente Médio — com o petróleo ainda acima de US$ 100 o barril.
O comunicado do Fed destacou que a economia americana segue em expansão em ritmo sólido, com o mercado de trabalho estável, apesar de criação de vagas mais moderada. Mas a inflação voltou a acender o sinal de alerta. Com isso, o mercado praticamente descartou cortes de juros em 2026 — uma virada expressiva frente a janeiro, quando dois cortes de 25 pontos-base eram precificados para o ano.
As bolsas americanas encerraram em alta na terça (5): o Dow Jones subiu 1,24%, a 49.910 pontos, e a Nasdaq avançou 2,02%, a 25.838 pontos, após sinais de manutenção do cessar-fogo entre EUA e Irã e alívio nas tensões no Estreito de Ormuz.
"O cenário econômico e os dados têm sido bastante resistentes durante o conflito. A postura cautelosa do Fed deve persistir enquanto a inflação de energia não der sinais claros de arrefecimento." — Jonathan Cohn, chefe de estratégia de taxas, Nomura
Tecnologia e IA: o motor silencioso de Wall Street
Por trás dos índices americanos, o setor de tecnologia continua sendo o grande propulsor do mercado. O entusiasmo em torno da inteligência artificial mantém empresas do segmento entre as mais valorizadas de Wall Street, com empresas de semicondutores e infraestrutura de dados liderando ganhos expressivos nos últimos meses. Analistas do Bank of America projetam o S&P 500 em 7.100 pontos até o fim de 2026, enquanto o Deutsche Bank trabalha com um cenário mais otimista, de 8.000 pontos.
IA como catalisador: Empresas ligadas ao boom da inteligência artificial seguem atraindo capital global. Para analistas, a continuidade dos lucros corporativos robustos nas big techs é um dos principais sustentáculos da resiliência de Wall Street diante das incertezas macroeconômicas.
Renda fixa brasileira: o porto seguro do momento
Com a Selic ainda em patamar historicamente elevado, a renda fixa segue como a grande beneficiária do atual ciclo econômico no Brasil. Títulos pós-fixados atrelados ao CDI continuam entregando retornos reais positivos, enquanto papéis prefixados e indexados ao IPCA ganham atratividade à medida que o mercado começa a precificar o fim do ciclo de alta dos juros.
LCAs (Letras de Crédito do Agronegócio) e LCIs (Letras de Crédito Imobiliário) emitidas por instituições financeiras seguem como destaque entre os investidores de varejo, pela combinação de isenção de Imposto de Renda e rentabilidade competitiva. Para perfis mais arrojados, analistas apontam que títulos prefixados de médio prazo representam uma janela de oportunidade, caso o Copom confirme a continuidade do ciclo de cortes no segundo semestre.
O que observar nas próximas semanas
O relatório de emprego dos EUA (payroll) desta semana será um termômetro crucial: dados mais fracos podem reabrir a janela para cortes do Fed, enquanto números fortes devem manter os juros americanos elevados por mais tempo — e reduzir o fluxo para emergentes como o Brasil.
No cenário doméstico, a evolução do IPCA e os dados de atividade econômica definirão o ritmo da Selic. Com eleições presidenciais se aproximando no segundo semestre, o risco político também começa a entrar no radar dos analistas, podendo adicionar volatilidade à bolsa e ao câmbio.
A geopolítica, especialmente o desenrolar do conflito no Oriente Médio e o controle do Estreito de Ormuz, permanece como o principal fator externo de risco, mantendo o petróleo elevado e complicando o trabalho dos bancos centrais ao redor do mundo.
Escrito por: Equipe Editorial Saldo e Vida Conteúdo focado em transparência financeira e bem-estar integral.
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