Hantavírus: o vírus silencioso que saiu das florestas sul-americanas e chegou a um cruzeiro de luxo no Atlântico

SAÚDE E BEM-ESTAR

5/9/20265 min ler

Três mortes, sete doentes e 147 pessoas confinadas no navio MV Hondius colocam em alerta a OMS e mais de 12 países. A cepa Andes — única variante capaz de transmissão entre humanos — está no centro do surto mais grave dos últimos anos.

Alerta ativo da OMS — O surto de hantavírus no cruzeiro MV Hondius resultou em 3 mortes, 5 casos confirmados e 3 suspeitos entre 147 pessoas de 20 nacionalidades. A OMS admite que o número de casos pode aumentar devido ao período de incubação de até 6 semanas da cepa Andes.

O surto que chocou o mundo: o cruzeiro Hondius

No dia 1º de abril de 2026, o navio de cruzeiro MV Hondius zarpou de Ushuaia, na Patagônia argentina, com destino a Cabo Verde, com 147 passageiros e tripulantes de 20 nações a bordo. O que começou como uma viagem de luxo pelo Atlântico Sul rapidamente se transformou em um dos eventos de saúde pública mais acompanhados do ano.

O paciente zero foi um holandês de 70 anos que apresentou os primeiros sintomas — febre, dor de cabeça e diarreia leve — no dia 6 de abril. Ele morreu a bordo em 11 de abril. Sua esposa, de 69 anos, também adoeceu, foi desembarcada em Santa Helena — ilha remota no Atlântico Sul — e morreu em Joanesburgo, África do Sul, em 26 de abril. Em 2 de maio, um cidadão alemão morreu a bordo após apresentar os primeiros sintomas quatro dias antes. Um passageiro suíço que desembarcou em Santa Helena foi hospitalizado em Zurique e testou positivo para hantavírus.

1 abr

Hondius parte de Ushuaia, Argentina, com 147 pessoas de 20 países.

6 abr

Paciente zero (holandês, 70 anos) apresenta febre, cefaleia e diarreia.

11 abr

Morte do paciente zero a bordo. Corpo desembarcado em Santa Helena.

25 abr

Esposa do paciente zero voa para Joanesburgo. Morre no dia seguinte.

2 mai

Terceira morte a bordo — cidadão alemão. Caso suíço confirmado em Zurique.

5 mai

OMS afirma que transmissão pessoa a pessoa não pode ser descartada.

6 mai

OMS confirma cepa Andes. Navio previsto para chegar às Ilhas Canárias.

Resposta internacional: A OMS notificou 12 países cujos cidadãos desembarcaram em Santa Helena em 24 de abril: Canadá, Dinamarca, Alemanha, Países Baixos, Nova Zelândia, São Cristóvão e Névis, Singapura, Suécia, Suíça, Turquia, Reino Unido e Estados Unidos. O governo das Ilhas Canárias manifestou resistência em receber a embarcação, enquanto a Espanha confirma o desembarque controlado.

O que é o hantavírus — e por que a cepa Andes é diferente

O hantavírus não é um vírus novo. Ele pertence ao gênero Orthohantavirus e está presente em praticamente todos os continentes, transmitido principalmente por roedores silvestres. A infecção humana ocorre pela inalação de aerossóis formados pela secagem de urina, fezes ou saliva de roedores infectados — e não, em condições normais, de pessoa para pessoa.

O que torna o surto do Hondius excepcional é a cepa envolvida: o vírus Andes, nativo do Cone Sul da América do Sul — especialmente Argentina e Chile. Trata-se da única variante conhecida do hantavírus capaz de se transmitir entre seres humanos, ainda que de forma rara, em situações de contato próximo e prolongado.

"A hantavirose está muito relacionada à ação agrícola, mexendo em paióis, carpindo. Não é comum o que aconteceu no cruzeiro — essa transmissão entre pessoas é uma exceção." — Moacyr Silva Junior, infectologista do Hospital Israelita Albert Einstein

Nas Américas, o vírus causa a Síndrome Cardiopulmonar por Hantavírus (SCPH), doença aguda que ataca principalmente pulmões e coração. Na Europa e Ásia, cepas diferentes causam a Febre Hemorrágica com Síndrome Renal (FHSR), que afeta os rins e tem letalidade entre 5% e 15%. A variante americana é significativamente mais letal: a taxa de mortalidade da SCPH varia entre 35% e 50%, dependendo da cepa e do estado de saúde do paciente.

Sintomas: como a doença progride

Os sintomas costumam surgir entre 1 e 6 semanas após a exposição ao vírus — no caso da cepa Andes, o período de incubação pode se estender até 6 semanas, o que torna o rastreamento de contatos uma tarefa complexa. A doença evolui em duas fases distintas:

Fase inicial (1–4 dias)

  • Febre alta

  • Dores musculares intensas

  • Cefaleia

  • Dor abdominal e lombar

  • Náusea e vômitos

  • Mal-estar geral

Fase cardiopulmonar (4–5 dias+)

  • Tosse e dificuldade respiratória

  • Taquicardia e hipotensão

  • Edema pulmonar

  • Insuficiência respiratória aguda

  • Choque circulatório

  • Risco de morte em horas

Atenção: A fase inicial mimetiza uma gripe comum, o que frequentemente atrasa o diagnóstico. O agravamento pode ocorrer em horas após a virada para a fase cardiopulmonar — tornando o reconhecimento precoce dos sintomas essencial para a sobrevivência.

Hantavírus no Brasil: uma ameaça endêmica e subestimada

Enquanto o mundo acompanha o surto no cruzeiro, o Brasil convive silenciosamente com a hantavirose há décadas. O primeiro caso registrado no país ocorreu em novembro de 1993, na região de Juquitiba, São Paulo. Desde então, a doença foi confirmada em 15 estados e no Distrito Federal, com maior concentração de casos no Sul, Sudeste e Centro-Oeste.

Entre 2013 e 2023, o Ministério da Saúde registrou 758 casos confirmados e 299 óbitos — uma taxa de letalidade de aproximadamente 39,4%. A maioria dos casos ocorre em áreas rurais e regiões de agricultura intensa, onde trabalhadores têm contato frequente com ambientes infestados por roedores silvestres, como paióis, silos de grãos e plantações.

Notificação obrigatória: No Brasil, a hantavirose é doença de notificação compulsória imediata, mesmo sem confirmação laboratorial. O diagnóstico é feito por sorologia ELISA em laboratórios de referência — cerca de 95% dos pacientes com SCPH apresentam anticorpos IgM detectáveis já no início dos sintomas.

Tratamento: não há cura, apenas suporte

Um dos aspectos mais preocupantes do hantavírus é a ausência de tratamento específico aprovado ou vacina disponível até hoje. O manejo clínico é baseado exclusivamente em medidas de suporte — repouso, hidratação controlada, suporte respiratório e, nos casos mais graves, ventilação mecânica e cuidados intensivos.

A administração excessiva de fluidos deve ser evitada nos casos de SCPH pelo risco de extravasamento vascular e edema pulmonar. Medicamentos inotrópicos podem ser necessários e devem ser introduzidos precocemente quando há sinais de instabilidade hemodinâmica. A janela entre o reconhecimento dos sintomas e a deterioração clínica pode ser de apenas algumas horas.

Pesquisas com anticorpos monoclonais contra o vírus Andes mostraram resultados promissores em modelos animais, com proteção mesmo em estágios avançados da doença. No entanto, nenhum desses tratamentos foi aprovado para uso em humanos até o momento, deixando médicos e pacientes dependentes de suporte clínico intensivo.

Como se proteger

Na ausência de vacina, a prevenção é a única linha de defesa eficaz. As principais medidas recomendadas pelo Ministério da Saúde e pela OMS incluem evitar contato direto com roedores e seus excrementos, não varrer a seco ambientes possivelmente contaminados — o ideal é umedecer o local com solução de hipoclorito antes da limpeza —, selar frestas e aberturas em residências rurais e armazéns de grãos, e usar equipamentos de proteção individual ao trabalhar em ambientes de risco.

Em contextos de surto com possível transmissão pessoa a pessoa — como o caso do cruzeiro Hondius —, o isolamento dos pacientes e o uso de equipamentos de proteção respiratória por profissionais de saúde são medidas de precaução recomendadas pela OMS.

Escrito por: Equipe Editorial Saldo e Vida Conteúdo focado em transparência financeira e bem-estar integral.