Lecanemabe chega ao Brasil: a virada histórica que o tratamento do Alzheimer esperava há décadas

SAÚDE E BEM-ESTAR

5/7/20264 min ler

Pela primeira vez, o país conta com duas terapias capazes de modificar a progressão da doença. Entenda o que muda para os pacientes, o que a ciência comprova e quais são os desafios ainda pela frente.

Situação atual no Brasil

O Brasil atravessou, silenciosamente, uma das viradas mais importantes da história da neurologia brasileira. Em 8 de janeiro de 2026, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovou o lecanemabe — comercializado como Leqembi, desenvolvido pela Eisai em parceria com a Biogen — para o tratamento do Alzheimer em estágio inicial. Com essa decisão, o país se tornou o primeiro do mundo a ter duas terapias modificadoras da doença aprovadas em sequência: o donanemabe (Kisunla) havia recebido o aval da Anvisa em abril de 2025, e agora o lecanemabe completa essa dupla inédita.

Para compreender o peso dessa notícia, é preciso entender o que existia antes. Durante décadas, os únicos remédios disponíveis para o Alzheimer agiam sobre os sintomas — tentavam manter os neurônios sobreviventes funcionando um pouco melhor, mas não tocavam na progressão biológica da doença. Era como tentar apagar um incêndio sem cortar o combustível. O lecanemabe muda essa lógica de maneira fundamental.

Como o medicamento age no cérebro

O lecanemabe é um anticorpo monoclonal humanizado que atua diretamente na causa mais aceita do Alzheimer: o acúmulo de placas de proteína beta-amiloide no cérebro. Mas sua atuação vai além de simplesmente atacar as placas já formadas. O medicamento se liga preferencialmente às protofibrilas solúveis de beta-amiloide — formas menores, mais tóxicas e que precedem a formação das placas consolidadas. Em outras palavras, ele age mais cedo na cascata neurodegenerativa, antes que o dano se torne irreversível.

Ao se ligar a essas estruturas tóxicas, o Leqembi sinaliza ao sistema imunológico que elas devem ser removidas. O resultado é uma limpeza progressiva do "lixo biológico" que destrói as conexões entre os neurônios. A proposta terapêutica não é recuperar perdas cognitivas já instaladas, mas desacelerar ativamente a progressão da doença — o que, para quem está nos estágios iniciais, pode significar meses ou anos a mais de lucidez e independência.

O que dizem os estudos

A aprovação da Anvisa se baseou nos dados do estudo CLARITY-AD, ensaio clínico global de Fase 3 considerado um dos mais rigorosos já conduzidos na área de neurologia cognitiva. Com 1.795 participantes em estágio inicial da doença, o estudo demonstrou que os pacientes tratados com lecanemabe apresentaram declínio cognitivo significativamente menor do que aqueles que receberam placebo ao longo de 18 meses.

"É um ganho real de qualidade de vida, porque os pacientes demoram mais para apresentar a piora dos sintomas. E esses ganhos parecem ser melhores quanto mais cedo o paciente começa o tratamento."

Mychael Lourenço — professor do Instituto de Bioquímica Médica da UFRJ

A Anvisa divulgou que o medicamento também demonstrou redução robusta da carga amiloide cerebral medida em exames de PET. Ou seja, não se trata apenas de uma melhora clínica subjetiva: há evidência de imagem mostrando que o cérebro dos pacientes tratados acumula menos placa ao longo do tempo.

Para quem é indicado

O lecanemabe é indicado exclusivamente para adultos com comprometimento cognitivo leve ou demência leve decorrente do Alzheimer, com confirmação da presença de beta-amiloide no cérebro e que não sejam portadores homozigotos do alelo ApoE ε4 — um perfil genético associado a maior risco de efeitos adversos graves. O diagnóstico preciso é indispensável: o medicamento não tem benefício comprovado em fases moderadas ou avançadas da doença.

Como é feito o tratamento

O Leqembi não é uma pílula: deve ser administrado por infusão intravenosa, com duração de aproximadamente uma hora, a cada duas semanas. Isso exige acesso a serviços de infusão ambulatorial, o que já representa um primeiro filtro de acesso no Brasil. Segundo informações do Conselho Federal de Farmácia, o medicamento deve estar disponível no mercado brasileiro a partir de junho de 2026.

Os desafios que ainda existem

A aprovação regulatória é apenas o primeiro passo. O lecanemabe traz consigo questões clínicas, econômicas e estruturais que não podem ser ignoradas. O efeito adverso mais preocupante são as ARIA (Anomalias de Imagem Relacionadas à Amiloide) — edemas e micro-hemorragias cerebrais que podem ocorrer durante o tratamento e exigem monitoramento constante com ressonância magnética.

Custo elevado: Nos Estados Unidos, o tratamento anual com lecanemabe pode custar até US$ 50 mil por paciente — aproximadamente R$ 269 mil na cotação de janeiro de 2026. Especialistas avaliam como improvável, ao menos no curto prazo, a incorporação do medicamento ao SUS. A farmacêutica Eisai ainda precisará submeter pedido à Conitec, órgão que avalia o custo-benefício das tecnologias para o sistema público.

Há também um desafio de infraestrutura diagnóstica. O medicamento só é eficaz em pacientes com confirmação de beta-amiloide cerebral — o que exige exames de PET ou análise de biomarcadores no líquido cefalorraquidiano. Esses recursos ainda são escassos e caros no Brasil, especialmente fora dos grandes centros urbanos.

Especialistas da Academia Brasileira de Neurologia (ABN) alertam que o benefício, embora estatisticamente significativo, é considerado clinicamente modesto na média dos pacientes — o que exige comunicação cuidadosa com famílias que podem ter expectativas excessivas. O lecanemabe não recupera memórias já perdidas. Ele, na melhor das hipóteses, compra tempo.

O que isso significa para o Brasil

Segundo o Ministério da Saúde, mais de um milhão de brasileiros convivem com o Alzheimer — número que tende a crescer com o envelhecimento da população. A chegada de duas terapias modificadoras da doença em menos de um ano é um sinal de que o Brasil está começando a acompanhar o ritmo das inovações terapêuticas globais, algo que historicamente levava muito mais tempo.

O lecanemabe não é a cura. Mas é, até hoje, a abordagem mais próxima que a ciência conseguiu chegar de realmente interferir no curso biológico do Alzheimer. Para milhares de famílias brasileiras que acompanham de perto a progressão da doença em um ente querido, isso representa algo concreto: a possibilidade de mais tempo, com mais presença.

A ciência não prometeu vitória fácil contra o Alzheimer. Mas em 2026, ela entregou ao Brasil algo que parecia distante há poucos anos: uma escolha real de tratamento — e a esperança sólida de que o melhor ainda está por vir.

Escrito por: Equipe Editorial Saldo e Vida Conteúdo focado em transparência financeira e bem-estar integral.