O peso das sanções sobre a indústria brasileira: tarifas sufocam empresas que já lutam para crescer

FINANÇAS

5/9/20267 min ler

A Embraer registrou queda de 51% no lucro no primeiro trimestre de 2026, mesmo com receita recorde. O caso da fabricante de aviões expõe um problema sistêmico: empresas brasileiras são penalizadas duplamente — pelos custos internos e pelas barreiras externas.

Quando a Embraer divulgou seus resultados nesta sexta-feira (8), o mercado esperava sinais mistos. O que encontrou foi uma contradição desconcertante: a empresa aérea mais valiosa da América Latina atingiu sua maior receita histórica para um primeiro trimestre — R$ 7,6 bilhões, alta de 18% —, mas viu seu lucro despencar mais da metade, de R$ 299,9 milhões para R$ 145,4 milhões.

A explicação oficial é técnica: uma mudança contábil na classificação de impostos diferidos ajustou a base de comparação. Mas entre os analistas, a conversa é outra — e mais preocupante. No horizonte da fabricante de São José dos Campos pesa um fator cada vez menos abstrato: as tarifas de importação americanas de 10% já custaram US$ 13 milhões só no primeiro trimestre. E esse número pode crescer exponencialmente.

O aviador e o peso nas asas

A Embraer não é uma empresa qualquer. É símbolo de que o Brasil pode competir globalmente em setores de alta tecnologia. Seus jatos comerciais e executivos voam por mais de 70 países. Sua carteira de pedidos atingiu US$ 32,1 bilhões — sexto recorde consecutivo. No primeiro trimestre de 2026, entregou 44 aeronaves, 47% mais do que no mesmo período de 2025.

"A XP Investimentos estima custo adicional de US$ 80 a 90 milhões para cada 10 pontos percentuais de tarifa — com impacto de 5 a 6 pontos na margem operacional no cenário mais adverso."

Ou seja: a empresa cresce, inova, exporta mais — e mesmo assim vê seu lucro corroído. Não por ineficiência, não por má gestão. Mas pela equação desfavorável em que opera: de um lado, o custo Brasil interno; do outro, as barreiras tarifárias que fecham o principal mercado do mundo para seus produtos.

A própria Embraer já ajustou sua projeção para 2026 considerando tarifas americanas de 10%. A margem Ebit ajustada esperada ficou entre 8,7% e 9,3% — números que seriam maiores sem esse custo adicional. O que acontece se as tarifas subirem para os 50% que os Estados Unidos chegaram a sinalizar? A pergunta deixa executivos e analistas em silêncio.

Não é só a Embraer, o Brasil inteiro sente

O caso da fabricante de aviões é emblemático, mas está longe de ser isolado. Em julho de 2025, o governo americano anunciou tarifa de 50% sobre produtos brasileiros — a maior entre os países notificados. Em agosto, a medida entrou em vigor, provocando um choque que atravessou cadeias produtivas inteiras.

O setor de carnes é um dos mais dramaticamente afetados. A tarifa combinada sobre carne bovina chegou a 74%, tornando as exportações economicamente inviáveis. Para frigoríficos como JBS e Marfrig — que nos últimos anos investiram bilhões em operações nos EUA — o cenário virou: o que deveria ser uma vantagem competitiva passou a ser um ponto de vulnerabilidade.

No segmento de celulose, a Suzano — maior produtora global de fibra curta — enfrenta riscos diretos. Os Estados Unidos respondem por cerca de 17% de sua receita. A empresa tem flexibilidade para redirecionar volumes, mas não sem custo. Para a Braskem, as exportações de produtos químicos caíram 27% em relação ao ano anterior, com o benzeno diretamente impactado pelas tarifas americanas.

O Brasil no centro da guerra comercial

Entre todos os países que receberam notificações de Donald Trump, o Brasil foi o que sofreu o maior impacto tarifário: 50% sobre todas as exportações para os EUA. A tarifa média sobre produtos brasileiros aumentou 30 vezes em relação ao patamar anterior, que era de apenas 1,3%, segundo o BTG Pactual.

O impacto macro é estimado em queda de até 1,2% do PIB, com redução de até 110 mil empregos no cenário mais pessimista. As simulações iniciais apontavam perdas de até US$ 15 bilhões na balança comercial em 12 meses — depois revisadas para US$ 9,4 bilhões com a lista de isenções ampliada.

"Para proteger suas margens de lucro, os empresários recorrerão, no curto prazo, a férias coletivas ou demissões", alertou o professor Fábio Santos, da UFSC.

Há uma ironia perversa no caso da Embraer que resume o problema maior. A empresa cresceu sua carteira de pedidos em 21,6%, entregou 47% mais aeronaves, bateu recorde de receita. Por qualquer critério operacional, foi um bom trimestre. Mas o lucro caiu pela metade — e boa parte do problema vem de fora, de uma política tarifária que o Brasil não controla e que pode piorar a qualquer momento.

A Embraer reage: diplomacia, lobby e uma linha de montagem como moeda

Diante do cenário adverso, a Embraer não ficou de braços cruzados. Sua estratégia para enfrentar as tarifas mistura diplomacia corporativa, argumentos econômicos e uma oferta inédita ao governo americano: a possibilidade de construir nos Estados Unidos uma linha de montagem de US$ 500 milhões para o KC-390, seu moderno avião militar de transporte e reabastecimento.

O CEO Francisco Gomes Neto foi direto ao falar sobre o tema: "Fica mais difícil, porque tem um custo adicional para a gente gerenciar o cliente. Nós estamos conversando com clientes potenciais, mas é claro que a alíquota zero deixa tudo isso muito mais fácil, por isso a gente vai continuar insistindo." A empresa reforçou sua equipe dedicada ao mercado americano e contratou consultoria especializada para ajustar a estratégia de entrada.

Argumento da Embraer aos EUA: a empresa ressaltou seus laços econômicos com os americanos — empregos gerados localmente e planos de comprar US$ 21 bilhões em produtos norte-americanos até 2030 — para defender o alívio tarifário junto às autoridades de Washington.

O E175-E1, jato regional de primeira geração, é peça-chave nessa equação: não tem substituto claro nas rotas domésticas americanas. Enquanto isso, o E195-E2 disputa espaço com o Airbus A220, que conta com linha de montagem nos próprios EUA — uma vantagem competitiva que as tarifas tornam ainda maior. A Embraer busca fechar sua primeira venda do E2 no mercado americano, mas admite que o custo adicional das tarifas torna o argumento comercial mais difícil de construir.

O Brasil nas mesas de negociação

A reação do governo brasileiro ao tarifaço seguiu o roteiro da diplomacia cautelosa. Desde o anúncio das tarifas em julho de 2025, Brasília buscou evitar a confrontação direta e apostou no diálogo como caminho. O vice-presidente Geraldo Alckmin, o ministro Fernando Haddad e o Itamaraty formaram a trinca negociadora — enviando duas cartas ao governo americano antes mesmo de a tarifa entrar em vigor, em agosto.

Mas as respostas demoraram. Oliver Stuenkel, professor de relações internacionais da FGV, foi direto ao problema: o Brasil "não tem uma super operação em Washington que possa ser acionada a curto prazo". A influência limitada em círculos de poder americanos ficou evidente quando uma comitiva do agronegócio e da indústria — representando CNA, CNI e Fiesp — tentou reuniões em Washington sem sucesso efetivo. A reunião bilateral entre Lula e Trump em outubro de 2025 abriu uma "avenida de entendimentos", nas palavras de Alckmin. O Brasil apresentou sua pauta — congelamento das tarifas durante as negociações, entre outros pontos. Os EUA, por sua vez, colocaram na mesa o acesso às reservas brasileiras de terras raras, a redução de tarifas sobre o etanol americano e compromissos de investimentos de empresas brasileiras nos EUA. A negociação, portanto, não é apenas comercial: é geopolítica.

Nove meses depois do pior do tarifaço, Brasil e Estados Unidos se preparam para nova rodada de negociações nos próximos 30 dias, segundo informação desta semana. Para as empresas que ainda sangram — como a Embraer, cujo resultado desta sexta-feira reflete apenas o impacto a 10% de tarifa —, cada semana sem acordo é mais um trimestre de margens comprimidas, mais um projeto postergado, mais um emprego que não é criado.

A aposta no futuro: o carro voador que pode mudar o jogo

Em meio ao cenário de pressão sobre margens e incerteza diplomática, a Embraer aposta em uma carta diferente para seu crescimento de longo prazo: o eVTOL da Eve Air Mobility, sua subsidiária de mobilidade aérea urbana. O projeto, popularmente chamado de "carro voador", representa a maior ambição tecnológica da empresa desde sua fundação — e também um dos maiores riscos financeiros do momento.

O protótipo em escala real realizou seu primeiro voo em dezembro de 2025, em Gavião Peixoto, interior de São Paulo. Desde então, cerca de 30 testes foram concluídos, com meta de atingir 300 voos ao longo de 2026. A certificação pela Anac e pela FAA americana está prevista para 2027, quando também devem começar as primeiras operações comerciais. A fábrica de Taubaté (SP), com capacidade para 480 unidades por ano, está nos planos de expansão. Os números são sedutores. A Embraer projeta que a demanda global por eVTOLs pode chegar a 30 mil unidades até 2045, gerando receita potencial de US$ 280 bilhões. Só para o Rio de Janeiro, os estudos internos estimam mercado para 245 aparelhos, 37 vertiportos e mais de 4,5 milhões de passageiros por ano. O trajeto entre a Avenida Faria Lima e o Aeroporto de Guarulhos — hoje uma odisseia de duas horas no trânsito paulistano — poderia ser feito em 13 minutos.

Mas há uma tensão evidente no balanço desta semana: o item "Eve" pesou R$ 29,4 milhões negativos no resultado como item extraordinário. A subsidiária consome caixa no presente enquanto promete receita no futuro. Cada trimestre de tarifa elevada e margem comprimida é um trimestre a menos de fôlego para financiar esse salto tecnológico. A mesma pressão tarifária que corrói o lucro dos jatos convencionais também limita os recursos disponíveis para construir o próximo capítulo da aviação brasileira.

A ironia é que o eVTOL precisa justamente dos Estados Unidos para decolar — tanto a certificação da FAA quanto o interesse de operadores americanos são essenciais para o sucesso global do produto. Ou seja: a empresa que mais sofre com as tarifas hoje é a mesma que mais precisa de uma relação comercial saudável com Washington para vencer amanhã.

Escrito por: Equipe Editorial Saldo e Vida Conteúdo focado em transparência financeira e bem-estar integral.