Varíola: A Praga que Aterrorizou a Humanidade por Milênios

CASOS DE DOENÇAS

5/16/202621 min ler

Da Antiguidade à Erradicação: A História da Doença Mais Devastadora da Humanidade

O FLAGELO DA HUMANIDADE

Por milhares de anos, a varíola foi uma das doenças mais temidas e devastadoras da história humana. Responsável pela morte de centenas de milhões de pessoas, ela moldou civilizações, derrubou impérios, alterou o curso de guerras e deixou cicatrizes — literais e metafóricas — em todas as sociedades que tocou. Reis, imperadores, faraós e camponeses: ninguém estava a salvo do Variola vera, o vírus causador desta terrível enfermidade.

Esta reportagem conta a história completa da varíola: sua origem nas brumas da pré-história, sua expansão pelo mundo antigo, os séculos de devastação, a genial descoberta da vacina por Edward Jenner, a campanha global de erradicação liderada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e o triunfo histórico de 1980, quando a doença foi declarada oficialmente extinta — o único caso na história em que o ser humano conseguiu erradicar completamente uma doença infecciosa que afetava a nossa espécie.

"A varíola é a maior tragédia da história da medicina humana — e também o seu maior triunfo." — Dr. Donald Henderson, líder da campanha de erradicação da OMS

O QUE É A VARÍOLA: O VÍRUS E A DOENÇA

O Agente Causador

A varíola é causada pelo Variola virus, um membro da família Poxviridae, do gênero Orthopoxvirus. Trata-se de um vírus de DNA de fita dupla, de grande complexidade genética — com cerca de 186.000 pares de bases —, o que o torna um dos maiores vírus que infectam humanos. Ao contrário de muitos vírus, o Variola é exclusivamente humano: não há reservatório animal conhecido, o que, paradoxalmente, foi a chave para sua erradicação.

Existiam duas formas principais do vírus: o Variola major, responsável pela forma mais grave da doença, com taxa de mortalidade entre 20% e 60% em populações não vacinadas; e o Variola minor (também chamado alastrim), que causava uma versão mais branda, com mortalidade abaixo de 1%. O Variola major era responsável pela grande maioria das mortes ao longo da história.

Sintomas e Evolução Clínica

O período de incubação da varíola durava entre 7 e 17 dias após a exposição ao vírus, tempo durante o qual o indivíduo infectado não apresentava sintomas e não era contagioso. Após esse período, a doença se manifestava de forma dramática e brutal.

A primeira fase — chamada fase prodrômica — se iniciava subitamente com febre alta (39°C a 41°C), cefaleia intensa, dores musculares severas, dor nas costas, prostração e, frequentemente, vômitos. Essa fase durava de dois a quatro dias e era extremamente debilitante.

Em seguida, surgia a manifestação mais característica da doença: o exantema cutâneo. As lesões apareciam primeiro na boca, língua e garganta, depois na face, e depois se espalhavam pelo corpo — incluindo palmas das mãos e solas dos pés, característica que a diferenciava da catapora. As lesões evoluíam de manchas avermelhadas (máculas) para pápulas (elevações sólidas), depois para vesículas (bolhas cheias de líquido claro), que se tornavam pústulas (cheias de pus), profundas e dolorosas. Todas as lesões evoluíam no mesmo estágio ao mesmo tempo — outra diferença crucial da catapora.

As pústulas eram profundas, sentidas como "balas de chumbo" debaixo da pele. Após cerca de uma semana, formavam crostas que caíam progressivamente, deixando cicatrizes permanentes e desfigurantes — especialmente no rosto. Em casos graves, as lesões podiam confluir, cobrindo todo o corpo numa massa de pus. A forma hemorrágica, mais rara, causava sangramento dos olhos, boca e pele, sendo quase sempre fatal.

A varíola também causava cegueira em aproximadamente um terço dos sobreviventes com lesões oculares, e deixava sequelas respiratórias, articulares e neurológicas permanentes em muitos outros.

Transmissão

O vírus se espalhava principalmente por gotículas respiratórias liberadas ao falar, tossir ou espirrar — a chamada transmissão por aerossóis. Também podia ser transmitido pelo contato direto com as lesões cutâneas, pus, crostas e fluidos corporais de infectados, além de objetos contaminados (fômites), como roupas, roupas de cama e utensílios. O vírus era extraordinariamente resistente no ambiente externo, sobrevivendo por semanas em superfícies secas.

Uma pessoa infectada tornava-se contagiosa desde o aparecimento das primeiras lesões na boca até a queda de todas as crostas — um período de duas a quatro semanas. Isso tornava o isolamento dos doentes uma medida fundamental de controle, praticada desde a Antiguidade.

ORIGENS: O RASTRO MILENAR DA DOENÇA

Os Primeiros Registros Históricos

A origem exata da varíola permanece objeto de debate científico. Evidências genéticas sugerem que o Variola virus pode ter divergido de um ancestral comum com outros poxvírus africanos entre 3.000 e 4.000 anos atrás — possivelmente a partir de um vírus de roedor que sofreu mutações e saltou para humanos. Outras teorias apontam para uma origem ainda mais remota, com estimativas de até 10.000 anos atrás, coincidindo com o início das primeiras grandes aglomerações humanas na Mesopotâmia e no Egito.

Os registros históricos mais antigos e seguros da varíola datam do Antigo Egito. Múmias egípcias que viveram entre 1.580 e 1.100 a.C. apresentam cicatrizes cutâneas que especialistas identificam como compatíveis com varíola. O mais famoso desses casos é o do Faraó Ramsés V, que morreu em 1.145 a.C. — as lesões em sua face mumificada são consistentes com as cicatrizes deixadas pela doença.

Na China, registros escritos descrevendo uma doença com sintomas similares à varíola datam de pelo menos o século IV d.C., com o médico Ko Hung descrevendo uma epidemia em 340 d.C. Na Índia, textos médicos antigos (sânscrito) descrevem a doença como "Masurika" e fazem referências a rituais de proteção e à deusa Shitala, protetora contra a varíola — evidência de que a doença já era comum e temida há milênios no subcontinente indiano.

A Expansão pelo Mundo Antigo

Durante as guerras do Império Romano, no século II d.C., a chamada Peste Antonina (165-180 d.C.) pode ter sido, ao menos em parte, a varíola. Trazida das campanhas militares no Oriente, a epidemia dizimou o Exército Romano e matou entre 5 e 10 milhões de pessoas, incluindo o imperador Lúcio Vero em 169 d.C. Alguns historiadores acreditam que essa pandemia foi um dos primeiros grandes golpes que contribuíram para o declínio do Império Romano do Ocidente.

Com a expansão das rotas comerciais e das conquistas militares, a varíola se espalhou progressivamente por toda a Eurásia e pela África. As Cruzadas, nos séculos XI ao XIII, contribuíram para disseminar a doença entre populações europeias, islâmicas e asiáticas. As cidades medievais — densas, insalubres e sem infraestrutura sanitária — eram caldeirões perfeitos para a propagação do vírus.

O Holocausto das Américas

O capítulo mais sombrio da história da varíola foi o encontro com as populações ameríndias após a chegada dos europeus nas Américas, a partir de 1492. As populações nativas do continente americano nunca tinham sido expostas ao vírus — e, portanto, não possuíam nenhuma imunidade contra ele. O resultado foi catastrófico e de proporções genocidas.

Em 1520, a varíola chegou ao México com os conquistadores espanhóis de Hernán Cortés. A epidemia dizimou a população asteca com uma velocidade e violência que chocou mesmo os conquistadores. Estima-se que entre 25% e 50% da população do Império Asteca morreram nessa primeira onda — incluindo o imperador Cuitláhuac, que morreu de varíola apenas 80 dias após assumir o poder. A doença foi um fator decisivo na queda de Tenochtitlán em 1521.

O padrão se repetiu por todo o continente. No Império Inca, a varíola chegou antes mesmo dos espanhóis, matando o imperador Huayna Cápac e precipitando uma guerra civil que facilitou a conquista por Francisco Pizarro. Na América do Norte, epidemias de varíola devastaram tribos indígenas ao longo dos séculos XVI ao XIX. Algumas estimativas sugerem que 90% da população nativa das Américas — cifras que chegam a 50 a 100 milhões de pessoas — morreram em consequência das doenças europeias, com a varíola sendo a principal responsável.

"Não fomos derrotados em batalha. Fomos destruídos por uma doença que não conhecíamos e contra a qual não tínhamos defesa." — Relato atribuído a um sobrevivente asteca, compilado por freis franciscanos no século XVI

EUROPA: SÉCULOS DE TERROR E DEVASTAÇÃO

A Doença que Não Distinguia Nobres de Plebeus

Na Europa dos séculos XVI ao XVIII, a varíola era endêmica — presente de forma permanente, causando epidemias cíclicas devastadoras. Estimativas históricas indicam que a doença matava entre 400.000 e 500.000 europeus por ano no século XVIII. A taxa de mortalidade variava entre 20% e 30% entre os infectados adultos, mas chegava a 80% entre bebês e crianças pequenas.

A doença era particularmente cruel com os mais jovens. Em muitas regiões europeias do século XVII, acreditava-se que não havia sentido em dar nomes aos bebês antes de eles sobreviverem à varíola — tal era a certeza de que a maioria seria infectada cedo na vida. Sobreviver à doença na infância conferia imunidade vitalícia, e as cicatrizes faciais eram tão comuns que eram consideradas sinais de beleza e maturidade em muitas culturas.

Mas a varíola também ceifava a vida de figuras poderosas. Entre os monarcas europeus vítimas da doença estão: Luís XV da França (1774), Maria II da Inglaterra (1694), o Sacro Imperador Romano Germânico José I (1711), o rei Luís I da Espanha (1724) e Pedro II do Brasil (que sobreviveu, mas ficou com sequelas). A doença moldava a política europeia de forma direta e imprevisível.

A Variolação: O Primeiro Passo Contra a Doença

Muito antes da vacina de Jenner, uma técnica primitiva de proteção já era praticada na Ásia e no Oriente Médio: a variolação (ou inoculação). O procedimento consistia em retirar material das pústulas de um doente com varíola leve e introduzi-lo na pele de uma pessoa saudável — geralmente por meio de um arranhão ou pequena incisão. O indivíduo contraía uma forma mais branda da doença e, após a recuperação, ficava imune.

A variolação era praticada na China desde pelo menos o século X, onde pós de crostas secas eram soprados nas narinas. Na Índia e no Oriente Médio, a inoculação cutânea era realizada por especialistas itinerantes. A prática chegou ao conhecimento europeu principalmente através de Lady Mary Wortley Montagu, esposa do embaixador britânico no Império Otomano. Ela mesma sobrevivera à varíola, que a desfigurou gravemente, e ficou tão impressionada com a variolação praticada em Constantinopla que mandou inocular seu próprio filho em 1718. De volta à Inglaterra, tornou-se uma ardente defensora da técnica.

A variolação reduzia a mortalidade de cerca de 20-30% (na varíola natural) para 1-2% (após a inoculação). Ainda assim, havia riscos: os inoculados podiam contrair a doença completa, podiam transmitir a varíola a outras pessoas e podiam morrer do procedimento. Era uma forma de proteção imperfeita e eticamente controversa — mas era o que existia.

EDWARD JENNER E A REVOLUÇÃO DA VACINA

O Médico do Interior Inglês

Edward Jenner nasceu em 17 de maio de 1749, em Berkeley, condado de Gloucester, Inglaterra. Filho de um clérigo anglicano, estudou medicina como aprendiz do cirurgião Daniel Ludlow e depois em Londres, sob orientação do renomado cirurgião John Hunter. Retornou a Berkeley para exercer a medicina rural, onde passaria a maior parte de sua vida.

Jenner era um homem de ampla curiosidade intelectual — interessava-se por geologia, astronomia, poesia e ornitologia. Em 1789, publicou o primeiro relato científico sobre o comportamento do cuco europeu, descrevendo como os filhotes de cuco expulsam os ovos dos outros pássaros do ninho — uma observação que antecipou conceitos de parasitismo e seleção natural. Mas foi na medicina que deixaria sua marca mais duradoura.

A Observação Decisiva: A Vaqueira Imune

No interior da Inglaterra do século XVIII, circulava há gerações uma crença popular entre os ordenhadores de gado: quem contraísse a varíola bovina (cowpox) ficava protegido contra a varíola humana. Ordenhadores e vaqueiras que trabalhavam com gado infectado frequentemente adoeciam com lesões nas mãos similares à varíola, mas em forma leve — e depois nunca contraíam a varíola humana, mesmo em plenas epidemias.

Jenner ouviu essa história pela primeira vez aos 13 anos, de uma jovem vaqueira que lhe disse: 'Não posso contrair varíola, pois já tive varíola bovina.' Essa observação não o deixou mais. Ao longo de anos de prática médica em Berkeley, ele coletou casos, observou padrões e tentou entender o fenômeno. Finalmente, decidiu testar a hipótese de forma científica — um experimento que, pelos padrões éticos atuais, seria completamente inadmissível.

O Experimento de 1796: Um Momento que Mudou a História

Em 14 de maio de 1796, Jenner realizou o experimento que mudaria o curso da medicina. Sarah Nelmes, uma jovem ordenhadora local, havia contraído varíola bovina de uma vaca chamada Blossom. Jenner coletou material das pústulas de Sarah e inoculou-o em James Phipps, um menino de 8 anos, filho de seu jardineiro.

O menino desenvolveu uma reação leve no local da inoculação — febre leve e mal-estar por alguns dias — mas se recuperou completamente. Seis semanas depois, Jenner realizou o passo mais ousado — e eticamente questionável — do experimento: inoculou James Phipps com material de um doente de varíola humana ativa. O menino não desenvolveu a doença. A proteção havia funcionado.

Jenner repetiu o experimento em mais 23 pessoas, com resultados consistentes. Escreveu então um artigo científico e o submeteu à Royal Society de Londres — que o rejeitou, pedindo mais evidências. Jenner publicou seus resultados às próprias custas em 1798, no trabalho intitulado 'An Inquiry into the Causes and Effects of the Variolae Vaccinae' (Uma Investigação sobre as Causas e Efeitos da Varíola das Vacas).

"A minha esperança é que o futuro extinção da varíola deva ser o resultado deste meu trabalho." — Edward Jenner, 1798

A Vacina Conquista o Mundo

Apesar da resistência inicial de parte da comunidade médica — e da oposição de inoculadores que perdiam sua principal fonte de renda —, a vacina de Jenner se espalhou rapidamente pelo mundo. A palavra "vacina" vem do latim 'vacca' (vaca), em homenagem à varíola bovina que inspirou a descoberta.

Napoleão Bonaparte, que num primeiro momento tinha desprezado Jenner por ser inglês (países então em guerra), acabou mandando vacinar todo seu exército em 1805 — e declarou Jenner "um dos maiores homens da história". Em 1806, o presidente americano Thomas Jefferson escreveu a Jenner afirmando que a posteridade saberá que existiu neste século um homem que realizou um grande benefício à humanidade.

Em 1803, foi criada a Real Expedição Filantrópica da Vacina, uma missão espanhola que levou a vacina para as colônias americanas e asiáticas, usando crianças como "portadoras vivas" do vírus — numa corrente de inoculações sequenciais que permitia transportar o vírus vivo ao longo de meses de viagem marítima. Foi a primeira campanha de vacinação em escala global da história.

Jenner morreu em 26 de janeiro de 1823, em Berkeley, sem receber o reconhecimento financeiro que merecia (o parlamento britânico lhe concedeu apenas compensações modestas, e ele gastou grande parte de seu patrimônio com a pesquisa). Mas seu legado seria, como previu, a extinção da doença que mais terror havia causado à humanidade.

SÉCULOS XIX E XX: VACINAÇÃO EM MASSA E A LUTA PELO CONTROLE

O Século XIX: Vacinação, Resistência e Epidemias

O século XIX foi marcado pela expansão da vacinação, mas também por epidemias devastadoras — especialmente entre populações pobres, não vacinadas ou que haviam recebido vacinas de baixa qualidade. A Guerra Civil Americana (1861-1865), por exemplo, matou mais soldados por doenças infecciosas, incluindo varíola, do que em batalha.

A resistência à vacinação também surgiu desde cedo. No Brasil, a Revolta da Vacina de 1904 é um exemplo emblemático: quando o sanitarista Osvaldo Cruz tentou implementar a vacinação obrigatória no Rio de Janeiro, a população — que vivia em condições miseráveis, desconfiava do governo e temia a coerção dos agentes sanitários — se revoltou em levante popular que durou cinco dias, com barricadas, tiros e dezenas de mortos.

No final do século XIX, Louis Pasteur e Robert Koch revolucionaram a microbiologia, estabelecendo a teoria dos germes e abrindo caminho para a compreensão científica das doenças infecciosas. Pasteur homenageou Jenner generalizando o termo "vacina" para todos os imunizantes — um tributo ao médico inglês.

O Século XX: Rumo à Erradicação

No início do século XX, a varíola ainda matava entre 300.000 e 500.000 pessoas por ano em todo o mundo. A doença era endêmica em grandes partes da África, Ásia e América Latina. Nos países desenvolvidos, campanhas de vacinação em massa haviam reduzido drasticamente a incidência — os Estados Unidos declararam a doença eliminada de seu território em 1949, e a Europa Ocidental havia alcançado o controle na mesma época.

Em 1958, a URSS surpreendeu o mundo com uma proposta histórica na Assembleia Mundial da Saúde: erradicar a varíola globalmente. O vice-ministro da saúde soviético Viktor Zhdanov argumentou que, com um vírus exclusivamente humano e uma vacina eficaz disponível, a erradicação era tecnicamente possível. A proposta foi aprovada, mas a campanha inicial (1959-1966) teve financiamento insuficiente e resultados limitados.

A Grande Campanha de Erradicação (1967-1980)

Em 1966, a OMS lançou o Programa Intensificado de Erradicação da Varíola, com orçamento de 2,4 milhões de dólares por ano — uma fração ínfima do custo que a doença impunha à humanidade. O programa foi liderado pelo epidemiologista americano Donald Henderson, que passaria os próximos 11 anos numa das missões humanitárias mais complexas e bem-sucedidas da história.

A estratégia inicial era a vacinação em massa — imunizar pelo menos 80% da população de cada país endêmico. Mas uma descoberta crucial mudou a abordagem: a vigilância epidemiológica e o rastreamento de casos, combinados com a estratégia de "anel de vacinação" (vacinar todos os contatos de um caso confirmado), mostravam-se mais eficazes e baratos do que tentar vacinar toda uma população. Essa mudança de estratégia foi decisiva para o sucesso da campanha.

A campanha enfrentou obstáculos enormes: guerras civis na África (incluindo a devastadora guerra civil na Nigéria/Biafra, 1967-1970), regimes políticos hostis, infraestrutura precária, estradas intransitáveis, superstições e resistências culturais, falta de refrigeração para as vacinas em países tropicais e epidemias simultâneas de outras doenças. Os trabalhadores de saúde da OMS — uma equipe internacional de epidemiologistas, médicos e enfermeiros — operavam em condições extremamente difíceis, muitas vezes em zonas de conflito.

Uma inovação tecnológica fundamental foi a agulha bifurcada (bifurcated needle), desenvolvida em 1961 por Benjamin Rubin. Essa agulha simples, barata e de fácil uso permitia administrar a vacina com uma série de picadas rápidas na pele, sem necessidade de seringa ou habilidade técnica especializada — e usava apenas um décimo da dose convencional, multiplicando o alcance dos estoques de vacina.

OS ÚLTIMOS CASOS E A ERRADICAÇÃO

O Continente Africano: O Maior Desafio

A África Subsaariana foi o teatro mais desafiador da campanha de erradicação. Países como Etiópia, Somália, Bangladesh e Índia foram os últimos redutos da doença. Na África Ocidental, a campanha foi liderada pelos Estados Unidos, e na África Oriental e Sul da Ásia, pelas equipes europeias e soviéticas da OMS.

Um episódio marcante ocorreu em 1974, quando uma terrível epidemia de varíola ameaçou destruir anos de progresso na Índia. Em apenas um mês, foram registrados mais de 11.000 casos no estado de Bihar. A OMS mobilizou mais de 100.000 trabalhadores de saúde indianos e dezenas de epidemiologistas internacionais. Através de uma operação de busca ativa de casos porta a porta, em milhares de aldeias, a epidemia foi controlada em poucos meses.

Ali Maow Maalin: O Último Caso Natural

O último caso natural de varíola na história ocorreu na Somália, em outubro de 1977. Ali Maow Maalin, um cozinheiro de hospital de 23 anos na cidade de Merca, contraiu a doença após ter transportado dois pacientes infectados em seu carro. Foi diagnosticado com varíola em 26 de outubro de 1977.

Maalin sobreviveu. Mais de 54.000 pessoas que haviam tido contato com ele foram vacinadas em uma operação de anel de imunização. Não houve transmissão secundária. A cadeia da varíola havia sido definitivamente interrompida.

Ironicamente, Maalin — que havia evitado ser vacinado durante a campanha de erradicação, com medo da agulha — tornou-se um dos maiores defensores da vacinação até sua morte em 2013, aos 59 anos, por malária, enquanto trabalhava como voluntário na campanha de erradicação da poliomielite na Somália.

O Caso de Birmingham: A Última Morte

A última morte por varíola no mundo não foi causada pelo vírus natural, mas por um acidente de laboratório. Em setembro de 1978, Janet Parker, uma fotógrafa médica de 40 anos que trabalhava no Departamento de Anatomia da Universidade de Birmingham, na Inglaterra, contraiu varíola. O vírus havia vazado de um laboratório de pesquisa localizado no andar abaixo de seu local de trabalho, dirigido pelo virologista Henry Bedson.

Janet Parker morreu em 11 de setembro de 1978 — a última vítima humana da varíola na história. O Dr. Henry Bedson, consumido pelo sentimento de culpa, suicidou-se dois dias antes da morte de Parker. O incidente de Birmingham acelerou o processo de consolidar todas as amostras de vírus vivo em apenas dois laboratórios de máxima segurança no mundo.

A Declaração Histórica de 1980

Após uma comissão internacional de especialistas verificar a ausência de casos por mais de dois anos, a Assembleia Mundial da Saúde reuniu-se em 8 de maio de 1980 e fez o anúncio mais extraordinário da história da medicina:

"O mundo e todos os seus povos foram libertados da varíola, que foi a doença mais devastadora que percorreu o mundo durante milênios, deixando morte, cegueira e desfiguramento em seu rastro... Esta conquista foi possível graças à solidariedade de todas as nações." — Resolução WHA33.3 da Assembleia Mundial da Saúde, 8 de maio de 1980

A varíola se tornava a primeira — e até hoje a única — doença infecciosa humana erradicada pelo esforço deliberado da humanidade. A campanha havia custado 300 milhões de dólares ao longo de 11 anos — menos do que os Estados Unidos gastavam com a varíola a cada dois anos apenas com vacinação e controle da doença.

LINHA DO TEMPO: 3.000 ANOS DE VARÍOLA

~1.145 a.C.

Faraó Ramsés V morre; sua múmia apresenta lesões compatíveis com varíola — o registro histórico mais antigo da doença.

165-180 d.C.

Peste Antonina devasta o Império Romano — possivelmente varíola trazida das campanhas no Oriente.

1520

Varíola chega ao México com Hernán Cortés, dizima o Império Asteca. Morte do imperador Cuitláhuac.

1532

Varíola precede Pizarro no Peru, mata o imperador Huayna Cápac e desestabiliza o Império Inca.

1718

Lady Mary Montagu introduz a variolação na Inglaterra após observá-la no Império Otomano.

1796

Edward Jenner realiza o primeiro experimento bem-sucedido com a vacina contra a varíola.

1798

Jenner publica 'An Inquiry...' — o marco fundador da vacinologia moderna.

1803

Real Expedição Filantrópica da Vacina leva a imunização para as Américas e Ásia.

1904

Revolta da Vacina no Rio de Janeiro, Brasil, contra a vacinação obrigatória de Osvaldo Cruz.

1949

Estados Unidos erradicam a varíola de seu território.

1958

URSS propõe na OMS a erradicação global da varíola.

1967

OMS lança o Programa Intensificado de Erradicação da Varíola, liderado por Donald Henderson.

Out.

1977

Ali Maow Maalin (Somália) é diagnosticado com o último caso natural de varíola na história.

Set.

1978

Janet Parker morre em Birmingham por acidente de laboratório — a última morte por varíola.

8 mai.

1980

OMS declara oficialmente a erradicação global da varíola — o maior triunfo da saúde pública.

PÓS-ERRADICAÇÃO: O VÍRUS QUE AINDA EXISTE

Os Dois Últimos Estoques do Vírus

Após a erradicação, os países foram solicitados a destruir ou enviar para centros de referência todas as amostras do vírus. Hoje, existem oficialmente apenas dois locais no mundo onde o Variola virus está armazenado com segurança: o Centers for Disease Control and Prevention (CDC) em Atlanta, nos Estados Unidos, e o Centro Estatal de Pesquisa em Virologia e Biotecnologia VECTOR, em Koltsovo, na Rússia.

A questão de se destruir ou manter esses últimos estoques é um dos debates mais intensos da virologia moderna. Defensores da destruição argumentam que ela eliminaria qualquer risco de vazamento acidental ou uso como arma biológica. Defensores da manutenção argumentam que as amostras são necessárias para pesquisa de vacinas e antivirais, como proteção caso o vírus seja redescoberto ou reconstruído por atores mal-intencionados. A OMS revisita periodicamente a questão sem chegar a uma resolução definitiva.

A Ameaça do Bioterrorismo

Com o fim da Guerra Fria e as revelações sobre o programa soviético de armas biológicas (o programa Biopreparat), soube-se que a URSS havia produzido toneladas de Variola virus modificado para uso em mísseis balísticos — uma violação flagrante da Convenção de Armas Biológicas de 1972. Isso levantou sérias preocupações sobre a possibilidade de estoques clandestinos do vírus existirem em outros lugares do mundo.

Após os ataques de 11 de setembro de 2001 e o caso das cartas com antraz nos EUA, os governos ocidentais criaram planos de contingência para um possível ataque bioterrorista com varíola e restauraram estoques de vacinas — que haviam sido destruídos após a erradicação. Os EUA mantêm hoje cerca de 300 milhões de doses de vacina em reserva estratégica.

A Varíola dos Macacos (Mpox) — Uma Prima Perigosa

Embora a varíola humana tenha sido erradicada, o Orthopoxvirus monkeypox — causador da varíola dos macacos (Mpox) — ressurgiu como preocupação global. Endêmico em florestas tropicais da África Central e Ocidental, o vírus começou a se espalhar fora do continente africano com maior frequência. Em 2022, uma epidemia de Mpox atingiu mais de 100 países simultaneamente, com cerca de 87.000 casos confirmados, levando a OMS a declarar emergência de saúde pública de importância internacional.

A vacina contra a varíola humana confere proteção parcial contra o Mpox — mais um legado do trabalho de Jenner. As populações nascidas após 1980, que não foram vacinadas contra varíola, são mais vulneráveis ao Mpox — uma consequência inesperada do sucesso da erradicação.

LEGADO: O QUE A VARÍOLA ENSINOU À HUMANIDADE

O Maior Triunfo da Saúde Pública

A erradicação da varíola permanece, meio século depois, o maior triunfo da saúde pública da história humana. A campanha provou que doenças infecciosas podem ser eliminadas com ciência, cooperação internacional, financiamento adequado e vontade política. Ela salvou, desde 1980, entre 150 e 200 milhões de vidas que teriam sido ceifadas pela doença — e continua salvando 5 milhões de vidas por ano.

A campanha também estabeleceu princípios e metodologias que seriam aplicados em outros programas de erradicação — como a poliomielite (em fase avançada de erradicação global) e o sarampo. A estratégia de vigilância epidemiológica ativa, o anel de vacinação, a formação de agentes de saúde locais e a cooperação internacional em tempos de Guerra Fria são lições que moldaram a saúde pública moderna.

A Vacina: A Maior Invenção Médica da História

Edward Jenner, com seu experimento de 1796, deu início à era da imunologia moderna. Sua descoberta é considerada por muitos historiadores da medicina a maior invenção médica de todos os tempos — tendo salvado mais vidas do que qualquer outro avanço médico, incluindo antibióticos. O próprio Louis Pasteur, ao generalizar o conceito de vacina, reconheceu que toda a vacinologia moderna era uma extensão da obra de Jenner.

Hoje, as vacinas previnem entre 2 e 3 milhões de mortes por ano em todo o mundo, segundo a OMS. A COVID-19 demonstrou, mais uma vez, que a vacinação em massa é a ferramenta mais poderosa da humanidade contra pandemias — e que a hesitação vacinal pode custar milhões de vidas. A história da varíola é, antes de tudo, uma história sobre o poder transformador da ciência e da cooperação humana.

O Brasil e a Varíola

O Brasil teve uma relação intensa com a varíola ao longo de sua história. A doença dizimou populações indígenas desde o século XVI e foi endêmica no país por séculos. No século XX, o sanitarista Osvaldo Cruz liderou a primeira grande campanha de vacinação obrigatória no Rio de Janeiro, enfrentando a famosa Revolta da Vacina de 1904. Seu sucessor, Carlos Chagas, continuou a modernização do sistema de saúde brasileiro.

O último caso de varíola registrado no Brasil ocorreu em 1971. O país foi certificado livre da doença pela OMS em 1973 — sete anos antes da declaração global de erradicação. O Programa Nacional de Imunizações (PNI) brasileiro, criado em 1973, é considerado um dos mais eficazes do mundo e tem suas raízes na experiência acumulada com a campanha contra a varíola.

UMA LIÇÃO PARA O FUTURO

A história da varíola é, em última análise, a história da relação entre a humanidade e as doenças infecciosas — uma relação marcada por sofrimento, resistência, criatividade e, finalmente, triunfo. Por três mil anos, o vírus matou, cegou e desfigurou centenas de milhões de pessoas, sem distinção de classe, raça ou poder.

A erradicação da varíola demonstrou que o ser humano é capaz de se unir — mesmo em meio à Guerra Fria, mesmo atravessando guerras civis e regimes autoritários — para vencer um inimigo comum que não conhece fronteiras. Ela mostrou que ciência, vacinação, vigilância epidemiológica e cooperação internacional são armas mais poderosas do que qualquer míssil.

Num mundo que ainda enfrenta pandemias, doenças emergentes e ressurgentes, hesitação vacinal e ameaças de bioterrorismo, a história da varíola é mais relevante do que nunca. Ela é um lembrete poderoso de onde viemos, do que somos capazes de alcançar quando trabalhamos juntos — e de quanto ainda temos a perder se esquecermos as lições do passado.

"A varíola foi erradicada não por uma vacina milagrosa, mas por um esforço humano coletivo — por epidemiologistas que trabalharam em zonas de guerra, por agentes de saúde que andaram quilômetros a pé em selvas e desertos, por governos que colocaram o bem comum acima de interesses políticos, por uma humanidade que decidiu que essa doença não tinha lugar em nosso mundo." — Dr. Donald Henderson, 1980

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